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Ponencia |
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Inicialmente
agradeço a oportunidade da conversa com vocês, esperando que essa seja a
primeira de muitas outras trocas de experiências entre nossos países. Para
nós brasileiros é fundamental poder conversar sobre avanços e limites que
enfrentamos nas políticas públicas de Recreação/Lazer[1]
que têm em vista o desenvolvimento local fundado na educação popular, aprendendo
com outras experiências dessa natureza. Esse desafio tem
se tornado cada vez maior desde a abertura democrática ocorrida no Brasil no
início da década de 1980, que marcou um momento de transição importante na
gestão social brasileira. As idéias de descentralização, municipalização e
participação popular na formulação e no controle das políticas públicas ganharam
força, ao mesmo tempo em que se ampliaram os direitos sociais. O ponto auge
desse momento histórico foi a promulgação da Constituição Federal de 1988, que
incluiu o lazer como um dos direitos sociais de toda a população. As mudanças
ocorridas a partir daí têm gerado experiências de proteção/promoção dos
direitos coletivos promulgados. Nesse cenário, são
construídos novos desenhos de ação coletiva por parte de movimentos sociais e
governos. E as políticas públicas de lazer, desafiadas a avançar nessa
direção, têm, sobretudo, buscado superar barreiras que dificultam, ou
impedem, o acesso às oportunidades culturais de lazer disponíveis para os
sujeitos de todas as idades, etnias, gêneros e camadas sociais. Além
disso, o reconhecimento do lazer como um dos fatores de desenvolvimento local
sustentável implicou na concepção de lazer como tempo/espaço/oportunidade disponível à livre escolha de diversificadas
práticas culturais lúdicas pelos sujeitos. (PINTO, 2008). Com esse sentido, o lazer passou a integrar as agendas
das políticas que tratam das desigualdades sociais as quais,
como analisa Kliksberg (2000), não se referem somente à carências materiais –
como pobreza socioeconômica que conduz à fome, ao desemprego, ao desabrigo, à
falta de acesso a projetos, bens e serviços, dentre eles os de lazer. Pedro
Demo (1996) nos lembra que lidamos com pobreza, sobretudo, como falta de
consciência política dos direitos e deveres sociais, desigualmente
distribuídos entre nós. Por isso, para ele, a redução de desigualdades
sociais supõe a participação dos cidadãos em ações políticas que sejam, primeiro
preventivas,
indo às raízes do problema, evitando que [desigualdades] se processem; segundo redistributivas de renda e poder,
o que implica atingir concentrações de privilégios, acumulação de poder,
centralizações administrativas. Em terceiro
lugar equalizadoras de oportunidades, partindo-se do pressuposto de que
as oportunidades foram apropriadas pelo grupo dominante. Uma face desse
desafio é a universalização [dos direitos sociais]: todos devem ter acesso às
oportunidades de modo incondicional, com a mesma qualidade. Em quarto lugar [promotora de] política
social que deve ser, sempre que possível, emancipatória, unindo autonomia
econômica [voltada à auto-sustentação] com autonomia política [alicerçada por
práticas participativas conscientemente vividas]. (DEMO, 1996, p.
21-23) Mudanças
nesse sentido acontecem a partir do momento em que políticas sociais passam a
assumir o princípio da eqüidade associado ao da universalidade, como critério
de prioridade e de garantia dos direitos sociais. Ou seja, parto do reconhecimento de que as pessoas e os
grupos sociais são diferentes entre si em vários aspectos (físicos,
culturais, sociais, educacionais, econômicos e outros) e que também têm condições diferentes de acesso ao que está
disponível em seu meio. Ao mesmo tempo assumo que as políticas sociais devem
ter caráter universal, independente das diferenças socioculturais e limites
vividos. Se existem diferenças que impedem o acesso é preciso que sejam
construídas políticas que o viabilizem, como, por exemplo, políticas que
atendam demandas de segmentos historicamente
excluídos como indígenas, populações ribeirinhas, do campo e de
assentamentos, idosos, adultos, pessoas com deficiências, crianças e jovens
que vivem em situação de risco e de vulnerabilidade social, dentre outros. Mas, como as experiências desenvolvidas pelas políticas públicas
brasileiras têm enfrentado esses desafios? Em que sentidos as políticas de
lazer têm contribuído com o desenvolvimento local? Para construir
respostas a essas perguntas trago para nossa reflexão experiências de
políticas de lazer por mim analisadas em estudos recentes (PINTO, 2007) e que
têm em comum o compromisso da garantia da democratização do acesso da
população à oportunidades de lazer[2].
De um
modo geral, as análises dessas experiências mostram que, para alcançarem os
resultados pretendidos, as políticas de
lazer precisam ser articuladas com políticas de garantia de renda mínima,
trabalho, provisão de serviços para a família, saúde, educação, planejamento
urbano, transporte, cultura, esporte e outras ações intimamente integradas às
desenvolvidas no campo do lazer. Além disso, é considerado como imprescindível a construção, a manutenção
e o uso de espaços e equipamentos específicos e adaptados para as práticas de
lazer, de modo a gerar oportunidades diversificadas de vivências de conteúdos
culturais que atendam a interesses: físicos, esportivos, artísticos, sociais,
intelectuais, tecnológicos, turísticos, de atividades na natureza, dentre
outros requeridos pela população. A
ocupação espacial local alia-se ao controle, à preservação, à proteção e à
valorização do meio ambiente. Precisamos cuidar dos rios, matas, campos,
cachoeiras, praias, florestas, montanhas e outros espaços naturais usados no
lazer. Também é destacada a importância da animação cultural lúdica
mobilizada pelos e com as pessoas, os grupos, as comunidades e os profissionais
envolvidos nos Programas em ação. O acesso responsável ao patrimônio cultural disponível é, pois,
indispensável à democratização do lazer. Exige competência não só do setor
público, como dos outros setores sociais envolvidos no campo do lazer. E,
sobretudo, exige consciência para o acesso às oportunidades de lazer vividas nos
gêneros de prática, assistência ou busca de conhecimentos, por meio de
participação crítica e criativa, superando vivências conformistas no lazer. No
entanto, afirmam os gestores com os quais dialogamos, o principal problema que
tem dificultado a democratização do acesso ao lazer, e que está na base de
muitos outros problemas, é a falta de conscientização, conhecimentos e
informações a respeito da importância, das possibilidades e dos limites das
práticas de lazer, comprometendo a participação consciente tanto de gestores
como de pessoas participantes nessas ações. Porque, segundo eles: é ainda
restrito, por parte do conjunto do governo e da população, o conhecimento da
importância do lazer para a qualidade de vida dos cidadãos. O lazer merece
maior investimento financeiro e educativo para se consolidar nas políticas
sociais. (A1) Em
nosso município precisa ser melhorada a consciência da população e dos
gestores de que a participação, embora dê mais trabalho e exija predisposição
de todos, não pode ser substituída por benesses, que até podem sanar questões
e problemas pontuais, mas não contribuem para a emancipação da população. Não
fomos educados para a participação e isso dificulta muito. (A2) Falta maior participação das comunidades no desenvolvimento de ações
no lazer e de políticas favoráveis ao desenvolvimento sustentável da
comunidade. Precisamos avançar nas questões administrativas com maior
descentralização das ações, combinadas com a criação de Conselho Municipal de
Esporte e Lazer e Conferências Públicas Deliberativas. A Secretaria precisa
ampliar parcerias com setores públicos (estadual e federal) e o Terceiro Setor.
(B1) Precisamos
melhorar a comunicação e interlocução da Secretaria com a comunidade. Pensando
nisso, trabalhamos no planejamento das pré Conferências Regionais, a ocorrer
neste 2005. Fazemos com o que temos, mas estamos muito longe do que queremos.
As demandas são tantas!!! (B2) Precisamos
melhorar a comunicação/divulgação das ações desenvolvidas. Os veículos
utilizados eram os mais alternativos. Os veículos de comunicação com maior
abrangência, rádio, imprensa escrita e TV na maioria das vezes não tinham
interesse pelo lazer. Daí a necessidade de criarmos rádios comunitárias e de
mais tempo para consolidar a participação popular. (C1) A sociedade hoje
exige formação acadêmica dos profissionais de lazer para atuar em políticas
participativas, maior disponibilidade de tempo de todos os envolvidos,
processos menos burocráticos e decisões mais rápidas. (D1) Necessitamos da construção de um modelo
mental da nossa entidade, que ainda é muito individual. À medida que os
modelos mentais são explicitados e compartilhados, expande a base dos
significados compartilhados na organização e aumenta a sua capacidade para
realizar ações integradas. Precisamos ainda maior alinhamento conceitual,
ampliando a reflexão sobre a própria prática, seus sentidos, significados e
intencionalidades. (E1) Também Sílvio Bava (2002) afirma que, para que se concretizem
inovações políticas, é preciso que haja atuação constante e qualificada da
sociedade que estimule a participação consciente. Pois o objetivo principal
não é apenas atender necessidades materiais do público alvo, mas
especialmente fortalecer a capacidade dos cidadãos de se auto-governarem nos
diversos aspectos da vida coletiva. E destaca (BAVA, 2002, p. 87), nunca é demais lembrar que é pela
associação livre de vontades que o poder se cria. Desenvolver a capacidade da
população de exercer a cidadania, isto é, a capacidade de saber escolher,
efetivar escolhas e se beneficiar delas, é a mola central desse processo. Nesse sentido, os gestores com os quais dialogamos apontam para a importância de três estratégias de educação popular para
autonomia dos sujeitos no lazer, que
podem ser desenvolvidas em diferentes espaços educativos (escolas, clubes,
comunidades, projetos sociais, praças, ruas e outros), tendo como
estratégia articuladora a categoria diálogo, ou seja: 1) sociabilidade lúdica a partir de demandas específicas e do universo
de referências das populações atendidas; 2) participação cidadã; 3) formação e ação integrada de gestores, agentes
e lideranças comunitárias. Sociabilidade lúdica a partir de demandas específicas e do universo de
referências das populações atendidas Em qualquer circunstância educativa, se desejamos promover uma educação
consciente pelo e para o lazer, é importante que as ações sejam ajustadas aos
interesses, necessidades e referências culturais dos participantes. Daí a importância
de tudo começar com diálogos que busquem conhecer os anseios individuais e
coletivos, identificar valores, conceitos, significados, hábitos, memórias
lúdicas, mudanças culturais, culturas familiares, condições de habitar, de organizar
e animar espaços, mobilizando conhecimentos na realização de atividades de
lazer. (PINTO e ZINGONI, 1997). A familiarização
com as pessoas e os grupos populares com os quais são desenvolvidas ações
educativas, gera ambiente propício para a realização de diagnósticos, que serão
enriquecidos na medida em que experiências cotidianas do lazer são
identificadas e analisadas, ampliando diálogos com outros membros do grupo,
entidade e/ou comunidade. Se a proposta
educativa for construída em um município é fundamental considerar os
resultados de conferências, congressos, plenárias e reuniões realizadas entre
governo e população para tomadas de decisões sobre as prioridades das
políticas de lazer. (BONALUME, 2004). Nesse processo, diversidades culturais e interação de pessoas das
várias idades (intergeracionalidade) expressam a riqueza humana e elementos
que facilitam nosso entendimento intercultural e potencializam as culturas
dos diferentes grupos, que variam segundo o nível de renda, as condições
culturais, educacionais e hábitos de lazer, dentre outros aspectos a
considerar. (BRASIL, 2007). Há nessa
experiência descobertas importantes para a educação para o lazer. A começar
pelo maior conhecimento das diferenças entre as pessoas e suas práticas
culturais. Isso é fundamental para a inclusão e o acesso de todos na
realização de múltiplas ações, pois cria oportunidade de ampliar e
diversificar o número de práticas culturais vividas no lazer, considerando
vivências significativas para os sujeitos. Os diálogos estabelecidos
favorecem o levantamento de conhecimentos prévios que estruturam o arcabouço
de experiências consolidadas pelos grupos - base inicial para novas experiências
que valorizem os participantes como co-autores das ações realizadas, questionem
o vivido e (re)criem conteúdos. Se esse diálogo for interdisciplinar, ampliando
condições de leitura e compreensão dos limites e das possibilidades das experiências
vividas. Assim, segundo essa
estratégia, educar para e pelo lazer é estabelecer relações entre o vivido e
o proposto, desejos e necessidades, o real e o subjetivo, envolvendo os
sujeitos conviventes nas ações. Ação que implica poder falar, escutar e ser
ouvido com acolhidas atenciosas e sensíveis ao outro. Contexto
propício para as vivências, que no meu modo de entender representam a
construção lúdica, ou seja, da alegria pela prática com autonomia. Conceito
que analiso com base na inter-relação dos princípios de vivência plural
(diversificada), significativa e compartilhada com o outro, exercitando a
autonomia dos sujeitos. (PINTO, 2007). O lazer como
tempo/espaço/oportunidade privilegiada para vivências lúdicas é, pois, uma
conquista do sujeito no contexto de suas relações socioculturais, vividas com
sentidos e significados diversos, valorizando os atribuídos pelos sujeitos,
como por exemplo, o de lazer como tempo/espaço/oportunidade de (re)criação,
encontro e pertencimento (PINTO, 2004). Participação cidadã Estratégia que
considera oportunidades para as pessoas decidirem sobre seu destino,
influenciando nas decisões públicas de lazer e participando das atividades
que afetam a sua vida. Nesse sentido, desde
os primeiros diálogos com os participantes podemos não só problematizar suas
vivências de lazer como também identificar e analisar demandas, recursos e
possibilidades disponíveis com vista a ampliar e otimizar práticas de lazer, ao
mesmo tempo iniciando o planejamento participativo com os sujeitos
envolvidos. (PINTO e ZINGONI, 1997). O processo
educativo participativo implica formas de construção de idéias, vínculos e
trocas de conhecimentos, negociações das regras de convivência e dos
conteúdos Convivência que
se enriquece quando envolve pessoas com diferentes experiências, modos de ser
e preferências culturais. Nesse sentido, o lazer é um tempo e espaço
importante para a interatividade e participação. E quando essa participação
implica decisões compartilhadas com o público local, buscando formas de
mediação entre o Estado e a sociedade civil, a prática democrática pode
inferir em tomadas de decisão das políticas de lazer, como revelam relatos dos
gestores ouvidos. Foram muitas reuniões e encontros de
qualificação dos recursos humanos: muito diálogo, paciência e humildade. (A1) As
decisões foram tomadas nas reuniões de planejamento da equipe da Secretaria e
com a comunidade, Conselho Municipal, Conferências, Orçamento Participativo,
Plenária Temática, Congresso da Cidade. (A2) Os técnicos da Secretaria coordenavam os
projetos sociais de esporte e lazer. Havia uma coordenação geral para
implantação do setor de ação comunitária no organograma da Secretaria. As
ações desenvolvidas eram decididas com as lideranças comunitárias
participantes de cada projeto. (B1) No programa Lazer e Trabalho as decisões
foram tomadas com os servidores. No programa Lazer na Cidade, discutimos com
a comunidade por meio das regionais administrativas, associações, grupos
organizados. Elaboramos Pré-Conferências Regionais de Esporte e Lazer para
diagnosticar anseios, potencialidades e lideranças de cada região da cidade,
preparando para a 2ª Conferência Municipal de Esporte e Lazer do município. Na
Secretaria nossa principal instância de decisão é o Conselho Gestor e nos
Pontos de Encontro de Lazer discutimos e decidimos com os agentes
comunitários. (B2) Nossas instâncias de decisão são os:
Encontros das Comunidades, Congressos Temáticos e Setoriais da Cidade,
Conselhos Municipais das áreas afins, Encontros com Famílias. (C1) O envolvimento da alta direção é básico
para o sucesso da mudança. Foi fundamental o envolvimento do Conselho/Superintendência,
corpo técnico, gerentes, assessores, analistas, terceiros, parceiros,
estagiários e beneficiários (representantes). (D1) As ações locais
sem dúvida são úteis para a democratização do acesso ao lazer, mas não
podemos descuidar da consolidação de medidas mais amplas em outros níveis de
poder. Uma dessas possibilidades
de efetiva participação na cidade, citada por todos os gestores
entrevistados, é o “Orçamento Participativo” (OP). Essa é uma estratégia
fundamental para as políticas sociais, uma vez que reflete a direção política
das relações econômicas referentes ao processo estatal de alocação e
distribuição de valores conforme as prioridades dos municípios. Relatando
experiência vividas na cidade de Porto Alegre (RS), Rodrigues e Gutterres
(1996), afirmam que o OP contribuiu para aumentar a consciência da população
e da administração municipal sobre a importância do lazer como fator de
qualidade de vida. Por intermédio dele, muitas regiões da cidade priorizaram
investimentos também na área de lazer, como: construção de ginásio
poliesportivo, praças e parques com fixação de profissionais de Educação
Física nesses locais, reforma de campos de futebol e quadras esportivas. A Prefeitura apostou na criação e execução
de um planejamento pautado em eixos temáticos que possibilitou ações
intersetoriais entre as secretarias e criação de uma esfera pública não
estatal de planejamento e controle social que, de 1997 até 2000, se expressou
através do OP e, de 2001 até 2004, avançou para o Congresso da Cidade. O
Congresso da Cidade foi um planejamento socialmente construído, experimentado
a partir de 2001, incorporando o acúmulo de quatro anos de OP (uma vez que se
constataram enormes limitações da experiência de planejamento participativo
centrado na elaboração do orçamento da cidade). O Congresso da Cidade foi um
passo para além do OP, discutindo as políticas públicas a partir de uma visão
integral da cidade. O mais importante não era apenas entender os problemas e
as necessidades do espaço onde se morava, para demandar obras, serviços e
equipamentos, mas entender a cidade como um todo, suas dinâmicas sociais
contraditórias e problemáticas. As Políticas de Esporte e Lazer passam a ser
planejadas a partir das diretrizes de governo, amplamente discutidas e organizadas
com diversos grupos sociais da cidade. (A1) Em Caxias do Sul, também, o aumento de equipamentos de esporte e lazer
deu-se pela priorização da população das diversas regiões da cidade no OP.
Segundo Bonalume (2004), até 1997, mais de 50% desses equipamentos se
localizavam no centro do município. No final de 2004, esse índice caiu para
30%. Outra possibilidade efetiva de participação na gestão das políticas
públicas é a criação dos conselhos, que são órgãos colegiados encarregados de
formular, acompanhar e fiscalizar as políticas públicas setoriais,
considerados indispensáveis para a descentralização e democratização das
políticas públicas por ser oportunidade de decisões mais coerentes e
realistas quanto aos problemas, necessidades, construção de alternativas e
transparência administrativa. (GRAU, 1998). Os
conselhos como instrumentos de expressão, representação e participação da
sociedade, têm potencial para promover transformação política, mesmo
enfrentando muitos limites nesse sentido. São espaços de co-gestão que podem
se constituir instrumentos importantes de mediação entre governo e sociedade
civil. Formação
e ação integrada de gestores, agentes e lideranças comunitárias. Essa estratégia
parte do pressuposto de que todos — gestores, agentes, lideranças
comunitárias — são educadores sociais, todos ensinam e aprendem continuamente
em ações compartilhadas. As atividades comunitárias
propõem uma nova relação entre cidadão e governo no que diz respeito a gestão
de seus programas de lazer. Com isso, procura superar os sentidos de
políticas públicas assistencialistas e paternalistas, que ainda persistem em
nosso meio. Esse
investimento é por nós entendido como esforço de mobilização, organização e
capacitação da classe popular para a autonomia dos cidadãos na prática do
esporte e lazer. A consideração da interface entre a prática educativa e a
prática política na presente proposta leva em conta que somente pode ser
possível transformações na sociedade se se operarem passo-a-passo com
propostas educativas populares. Nos
dizeres de Paulo Freire (1991, p.25), programa de ação popular [...] é uma forma
de conhecimento pela via do corpo. E o intelectual pode se enriquecer ao
aprender com essa forma de conhecimento. Vê a intimidade que existe entre (
por exemplo ) um favelado e os limites de sua alegria. E essas pessoas vão
transando com os limites de sua existência e vão aprendendo e vão resistindo
e vão realizando um saber corporal. É a água que não chega na casa, é o
quarto que tá faltando em pedaço, é o corpo que aprende em suas faltas. Eis
aí uma forma de conhecimento direto. Isso requer que elevemos o nível da participação cultural de formas conformistas a patamares mais críticos e criativos, considerando os sujeitos historicamente situados e cultivando o jogo ético que a experiência lúdica inspira. Essa experiência cultiva também, do ponto de vista estético, a beleza dos movimentos conjuntos e habilidades que se articulam criativamente em cada gesto e prática cultural que se faz. A concretização de projeto dessa natureza nos leva a ficar atentos para mecanismos político-sociais que possam não só sustentar essas propostas como dificultá-la, influenciando-a de modo inverso. Tem requerido também investimento na desburocratização e na realização de intervenções mais ágeis, cooperativas, criativas e descentralizadas, desenvolvendo programas que têm em vista reflexos socioculturais mais amplos e contínuos, diretamente articulados com as demandas dos cidadãos e grupos comunitários. A ação comunitária tem sido considerada como uma alternativa operacional dentro de políticas de ação social, de modo geral, e em especial e de forma privilegiada, no campo de lazer, quando a organização que formula a política quer revesti-la de características próprias. Essa alternativa, em qualquer área do social onde seja desenvolvida, leva em conta a necessidade do conhecimento da situação, ou seja, da realidade, interesses e aspirações de determinada clientela; sua participação efetiva no planejamento organização e avaliação das ações; e a integração com órgãos e instituições locais, quer em busca de apoio político, ou de recursos para manutenção e/ou ampliação da ação. A ação comunitária é entendida, operacionalmente, como um
trabalho socioeducativo que consiste numa intervenção deliberada em determinada comunidade, através de
atividades programadas em conjunto com pessoas e instituições locais,
objetivando despertar e ampliar sua consciência para os problemas da
comunidade, sensibilizá-las para a mobilização e coordenação de lideranças e
predispô-las para a ação que vise o encaminhamento de soluções daqueles
problemas, ou a tentativa de realização de aspirações relacionadas com a
comunidade como um todo. (REQUIXA, 1973, p.15). Várias das experiências relatadas fundamentaram-se na proposta
metodológica socioeducativa para trabalho comunitário construída por
Marcellino (2007), cujo plano de ação é composto por três fases interligadas: Deflagação
propriamente dita: ação sensibilizadora, levantamento de
necessidades e possibilidades de intervenção, definição dos objetivos
condutores da ação, seleção dos instrumentos de intervenção e realização de
atividade impacto. A ação dos técnicos é presente com muita intensidade no
planejamento, organização e execução, estimulando e coordenando as
iniciativas levantadas na análise da situação. Avaliação
dos resultados da ação: ocorrida num chamado período de
carência, considerando dois grupos de resultados, ou seja, (a) respostas
ligadas aos objetivos da ação, previstos no projeto e, geralmente,
necessitando de acompanhamento técnico para continuidade do processo e (b)
resultados reflexos, que são independentes de acompanhamento, pois são
assumidos pelas pessoas e grupos, ou não estavam previstos no planejamento da
ação. Continuidade
da ação: retomada dos resultados dependentes de
acompanhamento num período de sedimentação que requer acompanhamento direto,
necessário à consolidação do processo, buscando o alcance do estágio de
autonomia, onde o acompanhamento se fará a título de reciclagem. E aqui encontramos outro grande desafio a ser enfrentado: como
organizar o saber popular em um programa de ação governamental? Reconhecemos a necessidade de um conhecimento mais organizado das
lutas populares, mas seria equívoco em seguida substituirmos essas lutas por
“pacotes”. Há descobertas nisso aí. Referimos-nos a importância de desvendar
e equacionar as relações entre população e Poder Público. Esse desvendar quer
dizer conquistar o aprender, que para nós é o começo do conhecer pelas
relações lúdicas. Por isso, não podemos nos esquecer de que uma proposta de educação popular
para a autonomia não pode estar centrada na mera transmissão de
conhecimentos, mas, sobretudo, na criação de espaços nos quais o saber
popular possa se manifestar. A transmissão de conhecimento acontecerá de
parte à parte, à medida que se manifestar o desejo de um conhecer algo do
domínio do outro. Temos que tomar o cuidado para não sermos autoritários,
manipulando os sujeitos pela competência técnica e científica. As ações propostas implicam um trabalho em
equipe que reúna todos que atuam no contexto onde se realiza a intervenção
pretendida. Plano que será mais qualificado, respondendo melhor às múltiplas
expectativas que a ele são depositadas, se realizado com integração
intersetorial no planejamento/ação, ultrapassando o número de intervenções da
oferta já existente. (BONALUME, 2004). A articulação entre
parcerias internas e externas - entre programas de lazer e os demais campos
de atuação do setor - otimizam a ação em relação ao uso dos recursos de
infra-estruturas física, material e financeira disponíveis em diferentes tempos e espaços educativos da
entidade, com maiores condições de atendimento às necessidades
diagnosticadas e ações realizadas. A implementação e gestão das informações e conhecimentos sistematizados
nos processos de monitoramento e avaliação, difundidos para os envolvidos em
todos os níveis do processo, é outro instrumento estratégico de participação e
formação dos sujeitos, contribuindo para o fomento de estudos e revisões de
programas/projetos, assim como a ampliação de condições de acesso e
divulgação, com vistas a socialização e visibilidade dos resultados. O
assessoramento técnico-científico contínuo dos programas e projetos de lazer,
buscando a qualificação das ações e formação em serviço, é outro instrumento estratégias
que viabilizem a qualidade da gestão dos mesmos e a formação continuada dos
educadores do lazer envolvidos. Nesse contexto, os diálogos mobilizando não só os gestores, como nos
fazem também pensar sobre o alcance das ações educativas para autonomia no
lazer e em que medidas contribuem também para o desenvolvimento local, como
por exemplo: Estamos percebendo coerência entre discurso e prática; aumento de
participantes nas atividades com maior consciência sobre o que fazem;
avaliação positiva feita por eles; aumento e diversidade das ações
oferecidas; grande número de voluntários como parceiros; qualidade do
trabalho; grau de satisfação da maior parte dos funcionários da Secretaria. (A1) É importante ver
a comunidade acreditando, vivenciando e reivindicando lazer. (A2) Temos melhor estrutura gerencial da Secretaria; capacitação direta de
líderes comunitários e indireta de pessoas da região onde atuamos; integração
de projetos, setores, departamentos e servidores municipais; maior acesso às
atividades desenvolvidas; orientação das comunidades sobre uso de espaços e
equipamentos disponíveis para o lazer; produção científica e pedagógica sobre
práticas de conscientização da comunidade sobre o lazer na sua vida. (B1) Conquistamos espaço para ações, reflexões e participações no lazer da
cidade; continuidade do trabalho, independentemente do seguimento político
partidário à frente das primeiras idéias, sensibilização da população e
gestores da cidade para o lazer; parcerias com outros órgãos da Prefeitura,
clubes, empresas, ONGs; mapeamento de projetos comunitários existentes. (B2) Descentralizamos nossa gestão para aumentar condições de inclusão e acesso de maior parcela da
população nos programas e serviços de lazer que promovemos; há aumento de
equipamentos de lazer nos bairros periféricos, da auto-estima de muitos que
vivem na cidade e investimento/recursos públicos para o setor, com
participação popular na definição das políticas; a ação intersetorial entre
as secretarias do governo. (C1) Percebemos cooperação do grupo de trabalho; crescimento pessoal e
profissional de cada um da equipe; consciência de onde estamos e para onde
vamos; construção de uma política com uma ‘causa’ comum – a educação para a
autonomia no lazer − independente do campo de atuação - artes/esporte/
turismo/atividade física; reconhecimento institucional de que é possível um
trabalho "sério" sem ser sisudo; importância da "rede";
maior satisfação dos beneficiários. (D1) Há maior organicidade na articulação/alinhamento teórico-prático dos
nossos programas em torno de objetivo comum e construção coletiva de ações;
nova visão sobre os conteúdos (princípios, conceitos estruturadores, valores
e procedimentos) da política de lazer; busca do romper da dicotomia entre
planejamento/execução/avaliação; reconhecimento de que a política de lazer
está no dia-a-dia dos profissionais; busca de sentido e significado das
ações; lazer na entidade deixa de ser visto como “atividade” e passa a ser reconhecido
como dimensão cultural, alinhada aos nossos objetivos estratégicos; busca de
sistematização de conhecimentos para propor tecnologia de ação social
integrada que subsidie nossos programas educativos lúdicos. (E1) Esses
resultados nos dão uma idéia de que o desenvolvimento sustentável pressupõe
atingir padrões dignos de vida para todas as pessoas, não só para pequenos
grupos. Para isso, se faz necessário um suporte
para as escolhas e o uso do que for disponibilizado. Ou seja, a conquista
precisa ser traduzida em ações programáticas contínuas, sustentadas por
tecnologias que garantam o acesso a ser garantido. Enfim, a discussão aqui realizada parte do
pressuposto de que vivemos em uma sociedade onde alguns sujeitos e grupos têm
maiores privilégios para usufruir dos
bens produzidos. Nesse contexto, um desses bens essenciais é o lazer do qual,
ainda, muitos são excluídos, especialmente aqueles que não têm chances de
serem educados para práticas conscientes e lúdicas. Como
diz Paulo Freire (1998), para a transformação dessa realidade é preciso que
os sujeitos conheçam suas realidades, relacionem o lazer com suas condições
de vida, atuem e reflitam sobre suas ações concretas. E complementa, uma ação socioeducativa para a autonomia funda-se em experiências
estéticas, éticas, críticas e criativas. Respeita os saberes dos educandos; rejeita qualquer forma de
discriminação; reconhece a identidade cultural dos educandos e a necessidade da
superação dos nossos condicionamentos; corporeifica as palavras pelo exemplo; busca a apreensão da realidade
com convicção de que a mudança é possível. Curiosa, é comprometida como forma de intervenção no mundo, exercita a liberdade, a tomada consciente de decisões, o saber
escutar; o diálogo, o querer bem aos educandos e a alegria. Paulo Freire FONTES BIBLIOGRÁFICAS BAVA, Sílvio Caccia. Participação, representação e novas formas de
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Campinas: Alínea, 2007. p.171-194. PINTO, Leila Mirtes Santos de Magalhães. Sentidos de significados de lazer na atualidade: estudo com jovens
belo-horizontinos. Belo Horizonte: FAE/UFMG, 2004. (Doutorado em Educação) PINTO, Leila Mirtes Santos de Magalhães & ZINGONI, Patricia. Centros
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e políticas públicas setoriais; o papel das prefeituras. São Paulo:
Autores Associados, 1996. p. 71-84. |
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* A autora é
professora de Educação Física, mestre
[1] A aproximação
que faço aqui dos termos Recreação/Lazer tem o sentido de mobilizar análises
sobre políticas ditas de lazer ou de tempo livre, ou de recreação. Daqui para
frente irei me referir a “políticas de lazer”, considerando nomenclaturas
usadas pelas experiências brasileiras analisadas.
[2] Conversamos com duas
gestoras do Rio Grande do Sul. A primeira (identificada como A1), foi secretária municipal de
esporte e lazer de Porto Alegre no período de