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Ponencia |
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Gostaria inicialmente de agradecer o convite dos organizadores para a
participação neste evento, em especial a Esperanza Osório e Maria Patrícia Cárdenas,
por estreitarem cada vez mais, os laços entre os países latinos, irmãos, no
aprofundamento de discussões sobre temáticas tão próximas e pertinentes, a
partir das contribuições de nossas realidades e contextos. Minha aproximação com o tema proposto
para esta mesa parte do que tenho em comum com todos e todas aqui presentes,
o fato de sermos festeiros por “natureza”, pois a festa, faz parte da
condição humana, daí ser comum a
expressão “a vida é uma festa”. A festa marca nossa vida, os tempos fortes, as pausas, a alternância
de ritmo e de intensidade tanto no campo individual quanto coletivo. Marca
ainda a periodicidade das passagens.
Vivemos das lembranças de uma festa e da espera por outra, ela nos
permite entender que “recordar também
é viver”. A festa está presente na história da
humanidade muito antes da cultura. No tempo mítico os homens faziam festa e
também os deuses (Campbell, 2002). Nos livros da bíblia sagrada o termo festa
aparece com freqüência, podendo ser traduzido como cerimônia, celebração,
participação e descanso (Amaral, 1998). O carnaval certamente é uma das festas mais
antigas e remonta à Idade Clássica. Torna-se festa oficial na Roma Antiga e
ganha seu caráter profano e extra-oficial na Idade Média. O escritor
renascentista Bakthin com seus estudos sobre a sua teoria da carnavalização
ofereceu inúmeros elementos para a compreensão da cultura popular, - vertente quase sempre ocultada pela
historiografia oficial - , ao analisar a obra de Rabelais, que, justamente
por ter optado retratar o lado maldito da cultura de seu tempo, tornou-se o
mais incompreendido gênio literário do Renascimento. Num país como o Brasil,
onde “não existe pecado abaixo da linha do Equador”, o carnaval ganha novos
contornos e vem sendo alvo de estudos significativos para se compreender quem
é o povo brasileiro. A festa é um fenômeno que perpassa todas as culturas
com sentidos diversos. Entretanto não é fácil conceituar festa. Perez (2004)
instiga com a pergunta: Por que será que não se consegue constituir uma
teoria da festa? E afirma que o termo festa denomina mas não conceitua o
fenômeno. A festa é muito mais do que a festa. Não existe uma festa, e sim
várias, pois cada indivíduo pode participar dela de uma maneira. Além disso,
existem várias festas dentro da festa. Para cada um ela é uma. Daí a
dificuldade em conceituá-la. A festa vem-se tornando objeto de estudos de várias
áreas do conhecimento. Na História, as questões do poder e a festa cívica têm merecido destaque; na
Filosofia, a ênfase recai sobre o
belo, o lúdico e o jogo; na Psicanálise, constrói-se elementos de
análise sobre o tabu e consciência do eu; na Sociologia, há investigações
sobre o lazer e a revolução; a Antropologia preocupa-se com seus rituais
(religiosos) (Perez, notas de aula, 2006). Na Educação busca-se compreender
os aspectos pedagógicos presentes nas práticas culturais (Alves, 2008) e,
recentemente, o Turismo analisa seu
potencial para os negócios e serviços. No campo do lazer, pelo menos em nosso
país, ainda são recentes os estudos sobre a festa e estes quase sempre
descrevem os rituais e as possibilidades que oferecem as pessoas em seus
tempos disponíveis (Rosa, 2004). A festa se faz presente em todas as
sociedades, seja ela, celebração, comemoração, fruição, diversão, espetáculo,
ritual, brincadeira, investimento, trabalho, religião. Inúmeras são as festas, ao mesmo tempo em que são
únicas, singulares. Cada uma delas
exprime o modo de viver dos grupos sociais, que nelas produzem e reproduzem
sentidos e significados diversos. Desse modo, diz de nós mesmos, de nossas
sociedades e das relações que as pessoas estabelecem entre os grupos com seus
mitos, com o sagrado, o simbólico, uma ancestralidade, a historia. Numa
perspectiva sócio-antropológica investigar sobre a festa, portanto, é
compreender um pouco mais sobre nós mesmos e nossa vida em sociedade. Um pouco de história da
teoria da festa: as teorias clássicas: Para muitos autores a sociedade precisa da festa. Um de seus pressupostos é o divertimento . Em “As formas
elementares da vida religiosa” Durkheim (1996) não desenvolve uma teoria
sobre a festa mas, é a este autor que devemos a idéia deste fenômeno como agrupamento massivo, de efervescência
coletiva e geração de exaltação geral. Estas características fazem com que as
festas se aproximem de uma cerimônia religiosa, na qual o homem é
transportado para fora de si e do seu cotidiano. Para ele o divertimento
corresponde à função expressiva, recreativa e estética da festa. As festas são vividas como forma de sociação
(Simmel, 1983), do estar-junto em sua dimensão de delírio coletivo, de
exaltação, que constituem as representações coletivas. Para Durkheim (1996),
as representações atingem o máximo de intensidade, quando os indivíduos estão
reunidos e em relações diretas uns com os outros, onde comungam de uma mesma
idéia ou sentimento. Entretanto, quando a assembléia se desfaz, estas
representações perdem sua energia originária e retorna-se ao cotidiano. É
preciso encontrar um meio de reavivá-la, daí a importância das cerimônias
religiosas. Elas colocam a coletividade em movimento, os grupos se reúnem
para celebrá-las e seu primeiro efeito é de aproximar os indivíduos, de
multiplicar os contatos entre eles e de torná-los mais íntimos (apud Perez, 2004). A humanidade precisa da vida séria, pois seria um caos viver
Segundo Durkheim, é possível identificar,
tanto nas cerimônias religiosas quanto nas festas, gritos, cantos, música,
movimentos violentos, danças, além da busca de excitantes que elevem o nível
vital. Estas características sinalizam o lugar do excesso e das transgressões
permitido nas festas. Nelas vive-se um momento outro, numa lógica outra,
permitindo ao indivíduo sair, mesmo que por algumas horas, de sua vida real. Mauss (1974), ao discutir a variação sazonal na vida
dos esquimós, nos mostra como também a nossa, é feita de alternâncias em sua
dinâmica. Ele descreve sobre a vida
religiosa deste povo que possui características diferentes no verão e no
inverno. O primeiro (verão) é caracterizado pelo tempo da dispersão, onde os
vínculos sociais se afrouxam, as relações tornam-se mais raras, os indivíduos
são menos numerosos e a vida psíquica se atenua. O inverno, por sua vez, é a
estação em que a sociedade fica concentrada, possibilitando um estado crônico
de efervescência e superatividade. Neste período os esquimós vivem uma
espécie de festa contínua e coletiva, porque são atividades do grupo e porque
é o grupo e suas alternâncias da vida cotidiana, entre o trabalho e as
festas, que elas exprimem. Outra importante contribuição de Mauss diz
respeito às obrigações recíprocas nas questões de ordem moral construídas a
partir da teoria da reciprocidade. Essa teoria baseia-se nas trocas - ou obrigações
de dar, receber e retribuir - examinadas pelo autor nas manifestações da Kula
- troca de colares e braceletes entre os trobriandeses, e do potlach,
ritual de oferta de bens e de redistribuição da riqueza entre tribos
indígenas. No potlach, por exemplo, Mauss discute a economia pautada
na dádiva, na qual, diferente da economia de mercado (moderna), não é o
interesse ou o lucro que motiva as partes, mas a manifestação do
reconhecimento daqueles para os quais os bens são oferecidos. O
reconhecimento almejado é o status ou posição social pretensamente superior
daquele que oferece o potlach (Mauss, 1974). Caillois (1988) é o primeiro a assumir que está
fazendo uma teoria da festa. Em seu livro “O homem e o sagrado”, ele afirma
que a vida cotidiana opõe-se à efervescência da festa, pois esta última,
assim como nos diz Durkheim, provoca o arrebatamento coletivo e se
caracteriza pelo excesso e pândega. Nem toda festa para Callois é alegre,
existem também as tristes, mas todas elas se definem pela dança, pelo canto,
pela ingestão de comida e bebidas. A diversão é a palavra de ordem, até que
se chegue à exaustão e o corpo caia doente. Esta é a lei da festa. Analisando as festas de civilizações primitivas, o
autor constata um longo período festivo, no qual o esbanjamento e a
destruição, características do excesso, se tornam essência da festa. Também
nela a violência nasce espontaneamente, provocada pela agitação e estímulos
em seu interior. A festa representa, assim, o paroxismo da sociedade, pois,
ao romper de modo violento com as preocupações da vida cotidiana, surge para
o indivíduo como um outro mundo, onde ele se sente amparado e transformado
por forças que o ultrapassam. É o que mantém o homem ligado à sua
cotidianidade. Como diz Caillois, vivemos na recordação de uma festa e na
expectativa da próxima, pois nela vive-se um tempo de emoções intensas e da
metamorfose do ser. Caillois reconhece que Durkheim foi o primeiro
a elucidar que as festas proporcionam, em comparação com os dias úteis, a
distinção entre o sagrado e o profano. A vida cotidiana é dura, repetitiva,
monótona, ao passo que o dia do descanso, ou melhor, da festa, encerra um
tempo consagrado ao divino, onde o trabalho é liberado e a ordem passa a ser
o repouso, o gozo e a oração. Desse modo, a festa é freqüentemente tida como
o próprio reino do sagrado, uma vez que
nela, no tempo sagrado, os interditos e as restrições são reforçados
pela sua severidade, pelo jejum e pelos rituais. Esta sacralidade da festa
caracteriza sua ambivalência, pois se vive, simultaneamente, o tempo da
alegria e o tempo da angústia. O sagrado
manifesta-se na vida corrente pelo que é reservado, separado, o que é
colocado para fora e protegido por proibições destinadas a evitar qualquer
dano à ordem do mundo ou qualquer risco de a desarranjar e de nela introduzir
um fermento de perturbação. O sagrado aparece assim como algo negativo. Ao
contrário do que se pensa, é desta dimensão que nasce a festa, pois o período
sagrado da vida social é aquele em que as regras são suspensas e a licença
recomendada. Para Caillois (op. cit.), é aí que se encontra uma de suas
funções, isto é, irromper com uma brusca deflagração após uma longa e severa
compressão. Caillois (op. cit) defende ainda a morte da festa,
uma vez que ela está presente no tempo mítico, primordial, idílico. É a festa
que nos coloca diante a noção de tempo, da finitude, da morte. O tempo esgota
e extenua. Ele é aquilo que nos faz envelhecer e caminhar para a morte, é o
que desgasta. A festa renova a natureza e a sociedade. Apresenta-se como uma
atualização dos primeiros tempos do universo, como a
recriação do mundo, daí sua função
revigorante. A festa é celebrada no espaço-tempo do mito e assim
regenera o mundo real. É justamente ao renascer que
o mundo tem a possibilidade de remoçar e de reencontrar a plenitude de vida e
de robustez que lhe permitirá enfrentar o tempo durante um novo ciclo. É o
caos reencontrado e de novo moldado. A festa deve ser ainda definida como o paroxismo da
sociedade, ela purifica e renova, ao mesmo tempo em que é exagero, dispêndio.
Ela é o ponto culminante não só a partir do viés religioso, mas também do
econômico. É o instante da circulação das riquezas, da distribuição das
reservas. A festa é também sacrifício e destruição. Esta noção
da festa é discutida por Bataille (1993) para quem sacrificar é destruir e
até matar, não necessariamente em seu sentido literal. Sacrificar é
abandonar, doar, consumir. Gastar o que não se tem, comer o que não
necessita, dançar mais do que a conta, etc. A festa é, portanto, a parte
maldita da sociedade, uma vez que é precedida da idéia de dispêndio,
sacrifício, orgia, violência, consumo e consumação. As teorias contemporâneas
sobre a festa: A partir dessas discussões propostas pela
teoria clássica, Perez (2002) chama-nos a atenção para a necessidade de
ampliar o olhar do senso comum sobre a festa em alguns aspectos. O primeiro
diz respeito à diferença entre festa e divertimento. É inegável que este
último corresponde à função expressiva, recreativa e estética da festa. Porém,
como já nos alertou Callois, nem todas as festas são alegres, existem também
as tristes. Talvez o velório seja o seu maior exemplo. É comum no interior do
nosso país ouvirmos a expressão: “vamos beber o morto”, referindo-se ao
encontro, a cachacinha escondida para quebrar o frio do cemitério e também o
da morte. Outro aspecto é o de considerar toda festa um
ritual. É evidente que, no sentido de sua organização, a festa tem um ritual,
uma estética e etiqueta, mas ela não se restringe a eles. Do mesmo modo, a
festa é uma reunião exuberante, um espetáculo, mas não se esgota nisso, ao
contrário, é mais do que tudo isso. Perez (op.cit.) afirma que a teoria clássica
sociologiza excessivamente a noção de festa, ao substantivar, essencializar e
funcionalizá-la. Ancorada na teoria contemporânea da festa (Duvignaud,
Grisoni, dentre outros), ela propõe uma desconstrução deste fenômeno,
afirmando que é necessário tentar outra alternativa que não seja algo que
tenha substância, essência ou função, tratar a festa como um ato sem
finalidade, da ordem do gratuito. Para
a autora, a morte da festa está presente nas teorias clássicas, uma vez que a
relacionam com a tradição, tratada como algo do passado, congelado no tempo,
para os quais o que existe hoje é mera sobrevivência, um simulacro esvaziado
da sua verdadeira essência. O carnaval é o principal exemplo. É comum as
pessoas dizerem que o carnaval mudou, que o de antigamente era melhor do que
de hoje e que ele já na existe mais. O senso
comum, numa visão saudosista, assim avalia todas as festas, fazendo com que o
passado seja sempre romantizado e o presente caótico. Mas o passado um dia
foi presente... Festa é tradição sim, mas no sentido de que é aquilo
que o grupo faz e que passa de geração em geração, perpetuado no calendário,
numa periodicidade cíclica. Todo ano os coletivos fazem festa, mas ela não é
a mesma sempre: cada festa é uma festa, ela se
repete, mas muda sempre. Tradição não é imutabilidade, pelo contrário, é
mudança, é o que se vive na periodicidade, tem uma estrutura (forma) básica
fundamental, mas o conteúdo pode variar. A
festa nunca morre nem se descaracteriza, ela se atualiza. (Perez, notas de
aula, 2006). Nessa criação de uma outra tradição, o que importa é o movimento
de transmissão que quase sempre se dá pela oralidade. Contar as histórias é
lembrar da ancestralidade, dos mais velhos, de outro tempo. A festa é o que
permite a suspensão do tempo, o esquecimento. O principal expoente das teorias contemporâneas sobre a festa é o francês
Jean Duvignaud. Este autor dialoga com Mauss (troca-dom) e Bataille
(dispêndio), mas, ao mesmo tempo, faz uma ruptura com estes autores e com as
teorias clássicas, quando estas se colocam como tentativa de regeneração
social ou afirmação da ordem vigente. Duvignaud, em toda sua obra (1983,
1986a, 1986b, 1997), radicaliza a teoria da festa. Para ele, a festa está no
campo do imaginário, do possível, por isso ela abre as possibilidades para a
experiência. Na teoria clássica a festa inverte a ordem. Para Duvignaud, ela
é uma ruptura com a ordem estabelecida e, por sua característica anômica,
torna-se nociva a essa. Duvignaud (1986) afirma que a festa é um desses elementos que nos
possibilitariam compreender aquilo que nos liga uns aos outros, que faz vínculos
e produz elos, pois ela é o (re)ligare. Para ele, não seria preciso
explicar o que é a festa nem o tipo de vínculo que ela constrói, mas o que
acontece quando os homens se reagrupam nestes momentos privilegiados. A festa é ausência de significado, portanto potencialidade de gerar significantes. É a ruptura com a duração, ela provoca uma quebra no encadeamento dos determinismos, na ordem social e histórica. Por isso, é anti-social, remete à natureza, a um mundo sem estrutura, sem código, das forças não instituídas (instituinte) ao mundo do eu, da subversão. Instaura e constitui um outro mundo, uma outra forma de experienciar a vida social, marcada pelo lúdico (prazer, liberdade, gestão de conflitos), pela exaltação dos sentidos e das emoções e agonístico. É o simbólico no estado puro, na natureza, e não na
cultura. É uma “destruição consertada da cultura”, a anarquia total. É a
“louca da casa” (Perez, 2002). Este poder subversivo é o que possibilita ao
humano, outra experiência humana. Neste sentido, diz este autor que ela é revolução, porque coloca o
homem face a face com um mundo sem estrutura e sem código, com instâncias de
subversão. Ela se aproxima das atividades inúteis. A festa não serve para
nada. Não implica nenhuma outra finalidade, a não ser ela mesma. É efêmera.
Não foi feita para durar, senão vira rotina, cotidiano. Essa vivência do nada
é a finalidade sem a qual não haveria experiência humana verdadeira. A festa
é um momento fugaz que sai da rotina, da vida cotidiana, mas que nos remete ao
que nós somos: à matéria, ao imaginário, ao lúdico e à experimentação. É antes de mais nada um ato coletivo extra-ordinário, extra-temporal e extra-lógico. -
Por essas três
características podemos dizer que ela é transgressora e instauradora de uma
nova forma de sociação, dado pelo “estar juntos”, pelo fato mesmo da relação,
o importante é o sucesso do momento ou da lembrança dele. - A des-ordem que a festa inaugura é produzida pela
transgressão das normas vigentes, o que não significa ausência de ordem. Pelo
contrário a festa tem toda uma etiqueta própria que deve ser seguida. Instaura
um mundo novo, o do sagrado, que é marcado por uma temporalidade
especial. Traz perturbações para a
ordem estabelecida. Como disse
Duvignaud “deixa sementes que perturbam a sonolência da vida comum” (apud
Perez, 2004), por isso, as tentativas de dominação e domesticação da festa.
Pouco importa se é sagrada ou profana, o que vale é que ela é espaço
de reunião das diferenças, de figurações sociais, de assembléia coletiva e de
socialidade. É elemento de re-ligação. Num agrupamento festivo, os
participantes se sentem mais próximos uns dos outros, alguma coisa é divida,
é uma experiência estética, momento de grande coesão do grupo.
O povo na rua, a rua em festa: folia, orgia, fantasia, sedução, violência, transgressões de toda ordem, combinam com um clima de afetividade, familiaridade, encontro, de estar junto, coletivamente. A festa estando no campo da não ordem, do possível, é criadora da própria humanidade do homem, é o ato mesmo de produção da vida. -
Festas brasileiras São inúmeras as festas que ocorrem em nosso
território e, certamente, por aqui também. Num pais católico como o nosso,
além do calendário liturgico, santos e nossas senhoras se tornam padroeiros e
padroeiras de pequenas e grandes cidades, garantindo pelo menos uma festa ao
ano, nos mais de cinco mil municípios. Sem dizer dos outros motivos que
conduzem a população a momentos festivos, sendo o futebol, certamente um dos
mais significativos. Só para se ter uma idéia a final da Copa Libertadores da
América, na última semana, levou mais de noventa mil torcedores ao Estádio,
todos comungando das mesmas emoções e sentimentos. O carnaval é vivenciado em todo
país ficando a grandiosidade, o dispêndio e a exuberância, espetacularizada
em cidades como o Rio de Janeiro e Salvador, para onde se deslocam milhares
de turistas. As festas juninas no Nordeste, comemorando os santos juninos, em
especial, o São João, repetem a façanha. A festa do boi bumbá no Maranhão e
no Amazonas, com destaque para a cidade de Parintins, que revive a lenda do
boi, as histórias dos caboclos e dos indígenas por meio da rivalidade entre
os bois Caprichoso e o Garantido, são também grandes exemplos. Do norte ao
sul do país triplicam o número de manifestações que renovam a energia da
sociedade brasileira e nos identificam como um país da festa e da alegria,
apesar de (e provavelmente até mesmo por isso) todos os problemas que
enfrentamos. Estas festas revelam uma sociedade, que desde o seu
começo, vive do espetáculo, das mudanças e da fusão de vários códigos, que ri
de si mesma, que poetiza as relações dos homens consigo mesmos e com o mundo
dos quais vivem, ou seja, o sagrado e o profano (Perez, 2004).
Em meus últimos estudos concentrei os esforços na
tentativa de compreender uma festa católica tipica dos negros, escravos
vindos da África, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário e a outros santos
pretos como São Benedito e Santa Efigênia, mais conhecida como festas de
Reinado, Congado ou Congadas. Estas festas foram disseminadas em várias
regiões do Brasil, desde o inicio da colonização portuguesa e ganharam
destaque Só na regiao metropolitana de Belo Horizonte,
capital do estado, é possivel identificar aproxidamente 50 grupos de congado.
O ciclo anual destas festas envolve a realização de novenas, levantamento de
mastros e bandeiras em homenagens aos santos, coroações de reis e rainhas,
procissoes, cortejos solenes, missas, cumprimento de promessas, cantos,
danças, banquetes coletivos. Os festejos apresentam uma estrutura
organizacional complexa, onde é possivel identificar aspectos simbólicos e
significantes representando o legado de nações africanas e seus reinos
sagrados em nosso país. Assim como os
mistérios gozosos anunciam o nascimento de Jesus, vários congadeiros se
dedicam à folia de reis. Na quaresma, ou seja, nos mistérios dolorosos,
respeitam o sofrimento de Cristo e por isso, não tocam o tambor. A partir do sábado de aleluia até o dia
dedicado a Nossa Senhora da Conceição, em dezembro, os congadeiros vivem os
mistérios gloriosos, e ao longo do ano realizam suas festas. O dia dedicado a
Nossa Senhora do Rosário é 7 de outubro. Vivendo a fé, a
tradição, o mito por meio de cantos, danças e tudo o mais que envolve a
manifestação, homens e mulheres seguem o curso da vida, louvando não só as
divindades católicas mas também as nanãs das águas africanas, Zâmbi, o deus
banto, os seus antepassados e toda a gnosis africana. Desse modo,
atribuem sentidos e significados às suas próprias vidas. REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS ALVES, Vânia de Fátima Noronha. Os festejos
de Nossa Senhora do Rosário AMARAL, Rita de Cássia de Mello Peixoto. Festa
a brasileira - sentidos do festejar no país que “não é serio”. São Paulo:
USP, 1998 (Tese de doutorado). BATAILLE, Georges. Teoria da religião. São Paulo: Ática, 1993. CALLOIS, Roger. O homem e o sagrado. Lisboa: Edições 70, 1988. CAMPBELL, Joseph. Isto és tu. Redimensionando
a metáfora religiosa. 4 ed. São Paulo: Landy Editora, 2002. DURKHEIM, Emile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins
Fontes, 1996. DUVIGNAUD, Jean. Festas e civilizações. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1983. DUVIGNAUD, Jean. Heresie et subversion. Essais
sur l’anomie. Paris: Editions La Decouverte, 1986. DUVIGNAUD, Jean. DUVIGNAUD, Jean. El sacrifício inutil. México:
Fondo de Cultura Econômica, 1997. MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia.
São Paulo: EDUSP, 1974b. V. 1. PEREZ, Léa Freitas. Antropologia das efervescências
coletivas. Dionísio nos trópicos: festa religiosa e barroquização do mundo –
Por uma antropologia das efervescências coletivas. In: PASSOS, Mauro (Org.). A
festa na vida: significado e imagens. Petrópolis: Vozes, 2002. PEREZ, Léa Freitas. Por uma antropologia da
festa: reflexões sobre o perspectivismo festivo. Simpósio “Festa: em
perspectiva e como perspectiva”. XXIV Reunião Brasileira de Antropologia,
Pernambuco, 2004. ROSA, Maria Cristina. Verbete Festa. IN: GOMES,
Christianne Luce. (org.) Dicionário Crítico do Lazer. Belo Horizonte:
Editora Autêntica, 2004. p. 88-93. SIMMEL,
Georg. “Sociabilidade: um exemplo de sociologia pura ou formal”. Georg Simmel: sociologia. São Paulo,
Ática, org. [da coletânea] Evaristo de Morais Filho, 1983. |
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