Contemplando el Jardín de las Delicias de Bosh:

Un diálogo con Huizinga y Callois.

 

CONTEMPLANDO O JARDIM DAS DELÍCIAS DE BOSCH:

UM DIÁLOGO COM HUIZINGA E CAILLOIS

 

Cybele Câmara da Silva [1]

Iluska Larissa Leite Linhares

Maíra Rada Farias do Amaral

Katia Brandão Cavalcanti[2]

14 ENAREL. 13 a 16 de Noviembre de 2002.

UNISC. Santa Cruz do Sul – RS. Brasil.

 

 

 

RESUMEN

Entendiendo el fenómeno de la ludicidad como inherente al proceso de formación humana y teniendo sus manifestaciones de plenitud en el juego, el presente estudio procura establecer un diálogo en que se hacen presentes los elementos esenciales del juego, utilizando como interlocutores dos importantes estudiosos de este fenómeno: Huizinga y Caillois. El primero destaca su función y características, y el segundo resalta el tipo de experiencia que el juego proporciona. Se direcciona este diálogo para el análisis e interpretación de las expresiones de ludicidad que se revelan en las escenas del panel central de la obra “El Jardín de las Delicias” de Hieronymus Bosch. La hermenéutica fue el abordaje metodológico utilizado por posibilitar una interpretación reflexiva en espiral del fenómeno investigado. Y se en las artes plásticas el factor lúdico necesita de su acción pública para hacerse presente; en la obra de Bosch este se coloca en todo momento a través de los juegos de amor y seducción, permeados por metáforas sexuales.

 

RESUMO

Entendendo o fenômeno da ludicidade como inerente ao processo de formação humana e tendo suas manifestações de plenitude no jogo, o presente estudo procura estabelecer um diálogo em que se faz presente os elementos essenciais do jogo, utilizando como interlocutores dois importantes estudiosos desse fenômeno: Huizinga e Caillois. O primeiro destaca sua função e características, o segundo ressalta o tipo de experiência que o jogo proporciona. Direciona-se este diálogo para a análise e interpretação das expressões de ludicidade que se revelam nas cenas do painel central da obra “O Jardim das Delícias” de Hieronymus Bosch. A hermenêutica foi à abordagem metodológica utilizada por possibilitar uma interpretação reflexiva em espiral do fenômeno investigado. E se nas artes plásticas o fator lúdico necessita de sua ação pública para se fazer presente; na obra de Bosch este se coloca a todo o momento através dos jogos de amor e sedução, permeados por metáforas sexuais.

 

 

O JARDIM DE BOSCH

A obra o “Jardim das Delícias” do pintor holandês Hieronymus Bosch, retrata em seu painel central a realidade e as conseqüências do primeiro pecado, a luxúria. Para muitos, Bosch ultrapassa a narração do seu universo simbólico para recriar através de sua originalidade. Dentro da visão medieval, época em que viveu Bosch e a obra foi produzida, o ato sexual, que nesta obra torna-se o objeto central, significava a perda do estado de graça pelo homem, sendo visto com profunda desconfiança. Bosing (2001), estudioso das obras de Bosch, destaca que o ato sexual era visto “na melhor das hipóteses, como um mal necessário e na pior, como um pecado mortal”(p. 51). É notório na tela as várias formas em que os jogos de amor se expressam, o Jardim assemelha-se a um grande parque, tendo nos frutos espalhados à representação dos prazeres da carne, o ato de colher frutos na linguagem medieval significava fazer sexo. Esta obra e suas várias cenas de grande originalidade é amplamente admirada e constantemente reinterpretada ao longo dos séculos. Observamos nas cenas de toda a obra um ambiente em que a ludicidade se faz presente, seja pelos jogos de amor seja pelas cenas de brincadeiras representadas seja pelo interpretar de cada um ao observar o quadro e suas cenas.

Objeto de muitas reflexões atualmente, a ludicidade se materializa em todo o processo de humanização do homem, no qual se expressam principalmente os sentimentos de prazer e de alegria como inspiração, impulso para os diversos jogos. Segundo Santin (1994) “a ludicidade se constitui por uma atmosfera de total liberdade e autonomia”. Para o autor a ludicidade surge da vontade de “querer brincar”, de forma espontânea e surpreendente: para que o lúdico desapareça basta não querer mais. Ressalta ainda que a ludicidade “Não pode ser apreendida pela palavra, mas pela fruição. O comportamento lúdico é vivência, isto é, é fruição”(p. 28).

Sendo assim, o presente estudo procura estabelecer um diálogo em que se faz presente os elementos essenciais do jogo, utilizando como interlocutores dois estudiosos desse fenômeno: Huizinga e Caillois, direcionando este diálogo para a análise e interpretação das expressões de ludicidade que se revelam nas cenas do painel central da obra “O Jardim das Delícias” de Hieronymus Bosch.

 

HUIZINGA E O JOGO DA CULTURA

Nos estudos de Huizinga (1996), a essência do jogo reside em sua intensidade, fascinação e capacidade de excitar, expressando-se através do ritmo e harmonia, evidenciando o elemento lúdico em toda a sua análise e interpretação. É notória a amplitude deste conceito, tornando-se um fenômeno cultural conservado em memória e fixado em nossa tradição, com raízes em todo o processo de humanização do homem, valorizado pela ludicidade e pela estética. Para Huizinga “A vivacidade e a graça estão originalmente ligadas às formas mais primitivas do jogo. É neste que a beleza do corpo humano em movimento atinge seu apogeu”. (p. 9). Esta relação também já foi amplamente discutida por Schiller (1995) em suas cartas sobre a Educação Estética do Homem e que aqui resumiremos com apenas uma de suas reflexões que exprime o sentido dessa relação entre o jogo e a estética; “o homem deve somente jogar com a beleza, e somente com a beleza deve jogar”(p. 84).

Huizinga ressalta em sua obra as características fundamentais do jogo, como sendo este um ato voluntário, que se concretiza como evasão da vida real, com orientação própria, ocorrendo dentro de limites de tempo e de espaço, criando a ordem através de uma perfeição temporária e limitada. Um outro elemento que Huizinga não evidência como característica, mas enfatiza a sua importância, é a tensão, expressa pela incerteza e pelo acaso: em um jogo jamais se deve saber o final ou desfecho antes que este acabe, como exemplo os jogos de azar e as competições esportivas. Contudo, não se deve esquecer o papel fundamental das regras em um jogo, “e não há dúvida de que a desobediência às regras implica a derrocada do mundo do jogo”(Huizinga, op.cit, p.14). O autor resume essas características, conceituando o jogo como: “uma atividade livre, conscientemente tomada como “não-séria” e exterior à vida habitual, mas ao mesmo tempo capaz de absorver o jogador de maneira intensa e total. É uma atividade desligada de todo e qualquer interesse material, com a qual não se pode obter lucro, praticada dentro de limites espaciais e temporais próprios, segundo uma certa ordem e certas regras” (Ibid, p.16). Porém, sobre este conceito cabe uma análise mais cuidadosa, quando Huizinga o coloca como atividade “não-séria” não está de forma alguma desmerecendo a atitude de envolvimento total no jogo, pois como ele mesmo relata “certas formas de jogo podem ser extraordinariamente sérias” (p. 8).

No que se refere ao ato sexual, o autor não o coloca com tendo características funcionais do jogo, além de estabelecê-lo como processo biológico e assim não pertencente às características formais do jogo. Porém, o ato da conquista expressa vários elementos lúdicos, “trata-se principalmente do caminho que a ele conduz, o prelúdio e a preparação do amor, que freqüentemente revela numerosas características lúdicas. Isto é particularmente verdadeiro nos casos em que um dos sexos necessita conquistar o outro antes da cópula” (p. 49).

 

CAILLOIS: JOGANDO COM AS MÁSCARAS E COM A VERTIGEM

Caillois (1986) atende as mesmas idéias de Huizinga a respeito das regras do jogo: “Todo jogo é um sistema de regras. Estas definem o que é ou não jogo, o que é permitido e proibido” (ibid, p. 11). Ressaltando o prazer e a diversão que ele proporciona, enfatiza o fato de ser uma atividade livre. O autor retoma a obra de Huizinga na qual destaca que o estudo é valioso por “ter analisado magistralmente várias características fundamentais do jogo e em ter demonstrado a importância e sua função no desenvolvimento da civilização”(ibid, p.27). Comenta ainda que esta obra não é um estudo sobre o jogo, mas trata de uma investigação sobre a origem do jogo na cultura, sendo mais apropriado aos jogos de competição regulamentados. Caillois difere de algumas idéias de Huizinga, principalmente em relação aos jogos de azar, por entender que Huizinga excluíra estes em sua definição de jogo, estabelecendo características próprias para o jogo, como uma atividade livre, separada da vida cotidiana, incerta, regulamentada e fictícia. Enfatiza também a necessidade de igualdade de possibilidades dos jogadores. Para Caillois, as categorias de jogo são estabelecidas a partir das sensações e experiências que proporcionam: Agon, Alea, Mimicry e Ilinx.

Agon – está presente nos jogos de competição, onde a igualdade de oportunidades se torna artificial, para que os competidores se enfrentem em condições ideais. A rivalidade é o elemento principal e o resultado se estabelece por meio de mérito pessoal: “portanto sempre se trata de uma rivalidade em torno de uma só qualidade (rapidez, resistência, força, memória, habilidade, engenho, etc.)” (p. 43). Encontra-se nestes jogos o desejo da vitória, pois “A prática do Agon supõe por ele uma atenção sustentada, um treino apropriado, esforços assíduos e uma vontade de vencer” (p. 45). Caillois encontra o Agon presente também em fenômenos culturais, visto que “fora dos limites do jogo, se encontra o espírito do Agon em outros fenômenos culturais que obedecem as mesmas leis: o duelo, o torneio, certos aspectos constantes e surpreendentes da chamada guerra de cortesia” (p. 45).

Alea – É característica de jogos onde a decisão não depende do jogador, em que o elemento principal compreende o acaso, nos quais a habilidade não tem poder e o jogador lança-se ao destino: “Exemplos puros dessa categoria de jogo são os dados, a roleta, cara ou cruz, jogos de cartas, loteria, etc.” (p. 48). Para o autor, estes jogos não têm a função de fazer ganhar dinheiro os mais inteligentes, mas de anular as superioridades naturais e adquiridas a fim de possibilitar condições iguais antes que o veredito da sorte seja dado.

Mimicry – Caracteriza o jogo em que se faz presente a ilusão, a interpretação e a mímica. Permeados pelo uso de máscaras, o jogo torna-se uma grande representação com a construção de diversos personagens. Inclui-se nesta categoria as interpretações teatrais e dramáticas, pois “A Mimicry é a invenção incessante” (p. 58).

Ilinx – Esta categoria refere-se à busca da vertigem e o do êxtase, consistindo em romper por algum instante a estabilidade da percepção e da consciência em um pânico voluptuoso: “em qualquer caso, se trata de alcançar uma espécie de espasmo, de transe ou de perturbação dos sentidos que provoca a anulação da realidade por algo brusco que se torna superior” (p. 58).

 

METODOLOGIA

A abordagem metodológica utilizada no estudo é a hermenêutica, por servir a interpretação de textos, principalmente em seus sentidos ocultos. É dirigida para a compreensão de formas e conteúdos da comunicação humana. Foi utilizada também a hermenêutica visual para melhor interpretar as imagens do quadro objeto deste estudo, para poder observar a linguagem visual na obra de Bosch e analisar as imagens, suas representações e seus sistemas simbólicos.

Para Alegre (1998), “...o estudo da imagem é fundamental para o entendimento dos múltiplos pontos de vista que os homens constróem a respeito de si mesmo e dos outros, de seus comportamentos, seus pensamentos, seus sentimentos e suas emoções em diferentes experiências de tempo e espaço” (p. 76). As imagens aqui tratadas referem-se aquelas presentes na pintura realizada por Bosch no painel central do Jardim das Delícias, pintura esta cheia de simbolísmos. Alegre ressalta que “acima de tudo, a pintura foi o primeiro gênero capaz de criar a ilusão de Corporeidade, tornando a representação do visível, segundo Berger uma janela aberta para o mundo” (op. cit., p. 85).

 

DISCUSSÃO

A partir da análise dos elementos do jogo propostos por Huizinga e Caillois, percebe-se entre os autores convergências e divergências na abordagem teórica referente ao jogo. O conceito de jogo que admite como característica a atividade livre, com temporalidade e criação de espaços próprios, seguido de regras, e em que se faz presente a sensação de prazer e o divertimento, é ponto comum para ambos os estudiosos. Porém, Caillois critica o conceito que Huizinga estabelece para jogo, por ver neste uma exclusão dos jogos de azar, que considera de grande importância para a economia e para o cotidiano de diferentes povos.

Encontra-se em Huizinga a não aceitação do ato sexual como uma forma de manifestação do jogo, estabelecendo ser este uma atividade biológica com função de reprodução, destacando-se assim das características funcionais do jogo. Contudo, o autor evidencia a presença dos elementos lúdicos no ato da conquista e do flerte.

Na análise das imagens presentes no Jardim de Bosch, a ludicidade se faz presente não só através dos jogos de amor, mas também pelos seres que se encontram brincando com árvores e bolas na paisagem do Jardim. Nota-se que o próprio quadro pode servir aos propósitos do jogo, através da procura do simples observador da obra aos personagens que parecem brincar de se esconder em meio a tantas figuras que povoam toda a paisagem do Jardim.

Penetrando em algumas cenas da obra de Bosch aqui investigada pode-se estabelecer relações com as categorias de Caillois. A categoria Agon evidencia-se em algumas cenas de disputa entre homens com fins de conquistar as mulheres do Jardim, em especial, na cena em que montados a cavalo os homens “duelam” para conseguir as mulheres que se banham no lago. Esta mesma cena também pode ser observada a luz da Alea devido a grande quantidade de homens e poucas mulheres existentes no lago, o elemento sorte está presente nesta conquista. A Mimicry onde a ilusão é o elemento principal, admiramos o painel de Bosch no seu todo, ressaltando a representação do próprio artista que utilizou o pecado da luxúria para tentar moralizar a sociedade de sua época. A categoria Ilinx está presente nos diversos jogos de amor vivenciados pelos casais no qual o êxtase é explícito.

A intencionalidade da obra era moralizar a sociedade vigente contra o pecado da luxúria, no entanto, o Jardim das Delicias se apresenta, hoje, como um grande parque em que o elemento sedução torna-se evidente. O uso dos frutos espalhados pelo Jardim serve de metáfora para o ato sexual, suavizados por Bosch.

Para Huizinga, o ato público com a apresentação da obra se faz necessário para que as artes plásticas expressem seus elementos lúdicos. O quadro de Bosch, todavia é uma grande viagem a um mundo lúdico singular, já que as imagens permitem uma interpretação subjetiva da obra a cada observador, seja através da visão moralizadora de Bosch, seja pela visão infantil dos elementos que brincam pelo Jardim, seja pela visão artística expressa nos detalhes minuciosos de rara beleza estética, ou seja pela visão sexual, expressa pelos inúmeros casais que vivenciam seus jogos de amor e sedução presentes no Jardim.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Alegre, Maria Sylvia. Porto. Reflexões sobre iconografia etnográfica: por uma hermenêutica visual. In: Feldman-Bianco, B. e Leite, M. L. M. (Orgs.) (1998). Desafios da imagem. Campinas: Papirus.

Bosing, Walter.(2001). Hieronymus Bosch: entre o céu e o inferno. Köln: Taschen.

Caillois, Roger. (1986). Los Juegos Y Los Hombres: lá máscara y el vértigo. México: Fondo de Cultura Económica.

Huizinga, Johan. (1992). Homo ludens: o jogo como elemento da cultura. São Paulo: Perspectiva.

Santin, Silvino. (1994). Educação Física: da alegria do lúdico à opressão do rendimento. Porto Alegre: EST/ESEF-UFRGS.

Schiller, Friedrich. (1995). A educação estética do homem: Numa série de cartas. São Paulo: Iluminuras.

 

 

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