La política pública de estados en deporte y ocio y recreación: Un estudio de casos.

 

A POLÍTICA PÚBLICA ESTADUAL DE ESPORTE E LAZER:

UM ESTUDO DE CASOS.

 

Monalisa de Miranda[1]

José Jairo Vieira (UFViçosa)[2]

 

14 ENAREL. 13 a 16 de Noviembre de 2002.

UNISC. Santa Cruz do Sul – RS. Brasil.

 

 

 

RESUMEN

Este trabajo tiene como objetivo identificar y analizar las políticas de deporte y ocio y recreación en los Estados de Minas Gerais y de Río Grande del Norte, buscando conocer las tipologías de las políticas aplicadas, así como, el discurso de los agentes implementadores. Se evidenció la ausencia de políticas estatales de ocio y recreación en ambos Estados, o, cuando ellas acontecían, la verdad es que se resumen en meros servicios prestados sin una referencia adecuada del propio entendimento del ocio y recreación. Los proyectos de deporte se encuadran en el movimiento de olimpismo, haciendo alusión en la mayoría de las veces a la necesidad de detección de talentos.

 

 

RESUMO

Este trabalho objetivou levantar e analisar as políticas de esporte e lazer nos Estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Norte, buscando conhecer as tipologias das políticas empregadas, bem como, o discurso dos agentes implementadores. Evidenciou-se a ausência de políticas estaduais de lazer em ambos os Estados, ou quando elas aconteciam, na verdade resumiam-se a meros serviços prestados sem uma referência adequada do próprio entendimento do lazer. Os projetos de esporte enquadram-se num movimento de olimpismo, fazendo alusão na maioria das vezes a necessidade de detecção de talentos.

 

A desigualdade social e econômica nas sociedades contemporâneas aliadas a um processo crescente de organização do espaço urbano e rural, trazem aos governantes a preocupação e a necessidade de promoverem ações estatais que buscam aumentar a equidade social e oferecer aqueles indivíduos ou camadas da população desprovidos de bens e oportunidades a condição de vivenciar e poder usufruir de melhores condições de vida.

Neste sentido as políticas públicas sociais mantiveram durante décadas a tradição de investir em ações voltadas para a educação e o mercado de trabalho. Estas eram privilegiadas quando o objetivo permanecia na re-inserção social e na implantação de uma situação favorável a realização sócio-econômica.

Nas ultimas décadas observamos uma nova onda de áreas a serem contempladas e estrategicamente utilizadas pelo Estado no momento de criar e implementar políticas públicas, dentre estas novas áreas temos o esporte e o lazer. O governo passou a utilizar e incentivar as Políticas Públicas de Esporte e Lazer como meios de buscar a equidade social. Porém, como cada estado tem uma diretriz governamental, um contexto sócio-econômico, as Políticas Públicas de Esporte e Lazer são diversas em seus objetivos, público alvo, duração, proposta, abrangência etc.

Este trabalho teve por objetivo estabelecer uma análise das políticas de esporte e lazer dos Estados de Minas Gerais e do Rio Grande do Norte, buscando comparar a quantidade de políticas formuladas, o público alvo, o significado das políticas e também reconhecer o discurso que sustenta as representações dos gestores dessas políticas.

Como toda política social, a política de esporte e lazer deve se prestar a diminuir as desigualdades sociais e auxiliar na garantia do pleno exercício da cidadania. Porém, em muitos casos, ocorre uma utilização indevida pelo Estado no que concerne sua gestão e projeto político. Muitas vezes a efetivação de políticas de esporte e lazer está ligado a outros interesses, como simplesmente garantir ações empregadas de paternalismo e de utilitarismos. Nesse sentido, os programas ou as políticas desenvolvidas são favores prestados pelo Estado às comunidades (MALHEIROS, 2001).

 

METODOLOGIA

Como procedimentos metodológicos, utilizamos a revisão de literatura específica sobre políticas sociais no Brasil.

O Levantamento das políticas foi realizado, primeiro, a partir de contato telefônico com as secretarias estaduais, onde se procurou além de obter informações iniciais sobre a quantidade e o tipo de políticas de esporte e lazer, também obter materiais sobre estas iniciativas (folder para divulgação, documentos oficiais normativos, etc), que possam ser remetidos pelos correios por estes órgãos públicos.

Uma segunda forma de realizar o levantamento foi o questionário/entrevista aplicados nos agentes sociais responsáveis pela criação, implantação e gerência das políticas de esporte e lazer. Uma terceira forma de realizar o levantamento foi pela consulta aos sites (home pages) oficiais dos Estados.

 

Levantamento e Análise das Políticas de Esporte e Lazer nos Estados de Minas Gerais e Rio Grande do Norte.

Dentro de todo o arcabouço bibliográfico pesquisado (literatura de Ciência Política e literatura de Políticas Sociais) e pelo levantamento dos materiais de cada secretaria, buscamos nos referendar para criarmos o nosso conceito de Política Pública de Esporte e Lazer. Esta definição de conceito nos dá condições de entender e compreender a necessidade de se instituírem políticas de esporte e lazer, bem como, nos fornece subsídios para dialogarmos com os demais gestores de cada secretaria estadual. Mas antes da própria definição de política pública de esporte e lazer, procuramos compreender o que seria uma política pública.

Como política pública entendemos as ações estatais no seio da sociedade com o objetivo de diminuir as desigualdades sociais. A partir desse conceito, procuramos conjugar a política de esporte e lazer dentro da ótica de atuação da política social. Uma política pública de esporte e lazer, configura-se como ações estatais desenvolvidas a grupos específicos que utilizam como instrumento a atividade esportiva e as atividades de lazer para o pleno exercício da cidadania.

Entretanto, ao definirmos o que seriam políticas, lidamos com a questão da exclusão (grupos limitados de pessoas), pois observamos nos materiais enviados pelas secretarias, que estas ações voltam-se para grupos específicos e minoritários se tomarmos por base a população de cada Estado e suas características que lhes são peculiares.

Outro detalhe interessante, se a política pública de esporte e lazer é uma política social ela deveria se propor a diminuir as desigualdades. Entretanto, as políticas estaduais observadas não têm essa intenção e pouquíssimas são as ações que se propõem a fazer isso. A crítica que estabelecemos surge a partir do momento que as secretarias estaduais, enquanto órgãos governamentais que se dispõem a tratar de elementos da cesta social básica[3], que é o direito às atividades de esporte e lazer, elas deveriam pretender combater as desigualdades dentro de sua esfera de atuação.

Isso caracteriza o que ABRANCHES (1987) coloca como sendo as fortes tensões distributivas de nossa sociedade, determinadas pelo perfil de alocação de recursos e distribuição de renda. Ou seja, não existem critérios de justiça nas esferas distributivas e redistributivas política e socialmente cristalizados. Entramos numa questão delicada pois todo gestor, cria um juízo de valor e toma uma decisão ao achar que determinada política será a melhor, ou nem isso, simplesmente acha que não há necessidade de atender determinado segmento populacional ou problema social.

SANTOS (1987) pondera que esse é um dos problemas que envolvem o tratamento das políticas sociais, o que seria efetivamente para o gestor dessas políticas uma política social? Ou ainda, que tipo de problemas demandam esse tipo de políticas e, no nosso caso, as políticas esportivas? O autor considera que nem tudo que um gestor decide como sendo uma política de esporte e lazer, pode ser considerada passível de ser objeto de uma política social, da mesma forma que outras questões irrelevantes para o gestor podem ser de fato objeto de uma política social.

Um outro ponto suscitado por esse pensamento é sobre o conhecimento e a formação de cada gestor de políticas públicas. Será que esse gestor estará devidamente preparado para exercer o cargo e, ainda mais, será que se faz um planejamento para se conhecer as bases da matriz problema de cada política social estabelecida?

Entendemos que existem caracterizações para considerarmos alguma atividade como política pública de esporte e lazer e, para isso, ela deve atender a algumas prerrogativas como: ter uma pretensão à continuidade ou peridiocidade que a justifique, ou seja, não deve ser um evento esporádico ou isolado.

Diante disso, exporemos a seguir as políticas de esporte e lazer das secretarias estaduais.

 

Minas Gerais – SEESP (Secretaria de Estado de Esportes)

O principal objetivo dessa secretaria é massificar o esporte e promover uma ação política no Estado de Minas Gerais, visando uma grande mobilização social, através de dois pilares básicos: o esporte comunitário, que busca atender a população jovem carente, utilizando o esporte como fator de atração e contribuindo para sua formação educativa e, as competições esportivas tidas como um fator motivador, agregador e de desafio às capacidades humanas que pode promover a integração social e política.

O esporte comunitário tem por objetivos específicos levar a prática a todas as camadas sociais, oferecendo aos mais carentes, as condições básicas necessárias para o acesso aos benefícios do esporte; contribuir para a inserção social, a melhoria da qualidade de vida, a formação plena da cidadania, ocupando o tempo livre de maneira saudável e consciente; integrar as comunidades aos programas; utilizar o esporte como instrumento de combate às drogas e à marginalidade de crianças, adolescentes e jovens; descobrir novos talentos, incentivando o trabalho de base. O esporte comunitário também envolve ações para pessoas da terceira idade e para pessoas portadoras de necessidades especiais.

As competições esportivas (JIMI – Jogos do Interior de Minas Gerais; JEM – Jogos Estudantis Mineiros; Criação do Centro de Treinamento Olímpico) visam modernizar, sistematizar e planejar o esporte mineiro, buscando melhoria de resultados nas competições; incrementar competições esportivas como agente motivador para o aumento de praticantes; estimular a prática esportiva continuada como elemento de inserção e integração social; repensar e consolidar a tradição da cultura esportiva mineira; elevar o nível técnico dos atletas mineiros para revelar novos talentos do esporte; incentivar a iniciação esportiva e formação global da criança na área escolar.

           

Rio Grande do Norte -O CODESP (Coordenadoria de Desportos)

1 –  XXXII Jogos Escolares do Rio Grande do Norte - JERN´s: criado para incentivar o descobrimento de novos talentos nas diversas áreas esportivas e como atividade que contribua na formação integral do homem. Os JERN`s visam oportunizar a participação de 22.000 mil alunos das redes federal, estadual, municipal e particular de ensino. A competição envolve a escola, a família a fim de educar e sociabilizar a comunidade através do esporte.

2 – Pousada do Atleta: infra-estrutura criada para alojar as principais competições do Estado e competições de caráter nacional. Compõe-se de infra-estrutura que abriga 200 atletas, possui piscina olímpica, pista de atletismo, ginásios poliesportivos, etc.

3 – Desporto Comunitário – II Jogos Comunitários do Rio Grande do Norte: são ações envolvendo as modalidades de atletismo, futsal, futebol e voleibol realizados em 170 municípios do Estado, englobando quase 80 mil atletas. Visa dar à população melhores condições de desfrutar a prática esportiva, oferecendo entretenimento às comunidades, valorizando o atleta e revelando futuros atletas no cenário esportivo estadual.

4 – VIII Jerninhos: jogos escolares da 1ª a 4ª série, objetivando socializar a criança ao desporto de forma gradual, quebrando o impacto da competição de alto nível.

5 – XII CEEMS: campeonato das Escolas Estaduais e Municipais, que serve como elemento de entretenimento, lazer e integração para os estudantes da rede pública de ensino e referência para a classificação para os II Jogos Norte e Nordeste de Escolas Públicas realizados em várias capitais da região

6 – VI Copa de Futebol Garibaldi Alves Filho: promover a interiorização do desporto como também a descoberta de novos valores no cenário desportivo do Estado. Envolve a participação de 100 municípios, concretizando-se no maior evento de futebol amador do Estado.

7 – Projeto Viva Vôlei: projeto realizado em parceria com a Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), que busca proporcionar a aprendizagem do voleibol favorecendo a formação do cidadão, descobrir futuros atletas no Estado e realizar jogos que permitam a integração dos participantes.

 

As Políticas de Esporte e Lazer a partir do discurso dos secretários estaduais.

Foram realizadas duas entrevistas, em dois estados a saber, Minas Gerais e Rio Grande do Norte, em que buscamos encontrar um maior detalhamento das políticas ou projetos desses dois Estados. Entrevistamos o secretário estadual da SEESP (Secretaria Estadual de Esportes de Minas Gerais), o Sr. Sérgio Zech Coelho, e um dos gestores do CODESP (Coordenadoria de Esportes de Natal), o Sr. Arthur Prestes (sub-coordenador de eventos).

A primeira pergunta da entrevista, referia-se à existência de filiação partidária dos gestores com o partido político do governo eleito de cada estado. Em nenhum dos Estados observou-se essa ligação. Isso demonstra a ausência de conhecimento e ligação com o projeto político de cada governo, porém, tanto o secretário da SEESP, quanto o do CODESP, disseram que nenhum de seus governos possuíam diretrizes para a composição das políticas estaduais de esporte e lazer.

Passando para o entendimento do que seriam políticas publicas, tivemos como respostas: o gestor do CODESP “... a política é todo incentivo, apoio, mecanismo que o governo oferece para o esporte, para o lazer, uma política geral tanto na área escolar quanto na comunidade. É o que o governo pode fazer”. Já o secretário da SEESP, respondeu argumentando que ainda não existe um rumo em termos do que queremos enquanto uma política nacional de esportes e de lazer, o que poderia ser entendido como uma ausência de diretrizes para a formulação das políticas estaduais.

A fala do gestor da CODESP é enfática quando afirma que “...é tudo o que o governo pode fazer...” e isso caracteriza, como reporta ZINGONI (1999), a políticas de atividades, de doação de material esportivo ou cessão de equipamentos, sem, contudo, levar em conta a participação humana, que é a vida desses equipamentos. Ainda encontramos, nos projetos dessas secretarias estaduais, a cultura dos eventos e da prática, a oferta de eventos passageiros, elitistas, discriminatórios e onerosos, sem reflexos sociais contínuos, reforçando desigualdades sociais, a valorização do esporte de rendimento, reduzindo seu conceito a visões parciais e limitadas, nesse ponto, observamos a política clientelista e de privilégios.

Apesar dessa suposição, todas as duas secretarias possuem equipes com quadro profissional de formação superior e com experiência em gestão de administração de empresas e de eventos esportivos. A maioria das pessoas envolvidas com a formulação das políticas são profissionais de educação física (isso no CODESP) e ex-atletas de renome ou com vida esportiva (SEESP).

A instituição de fomento dessas políticas tanto na SEESP, quanto no CODESP, assim como as demais secretarias, são da loteria federal e alguns estados da loteria estadual. Existe a verba do governo estadual, mas em Minas Gerais ela é mínima, atendendo apenas a despesas de manutenção da SEESP. No CODESP, 90% da verba provém do governo estadual e 10% da loteria federal, recurso o qual é repassado pelo MET para todas as secretarias estaduais. Ambas as secretarias dizem que a quantia recebida é insuficiente para trabalhar, ou para desenvolver políticas de maior peridiocidade e que atendam a um maior número de pessoas. Buscam assim alternativas, quando e como podem, com a iniciativa privada, mas tem dificuldades de conseguir por não tornarem os produtos das secretarias, no caso os projetos, atrativos.

Em termos de quantidade e público alvo atendidos, os programas da SEESP – MG atendem cerca de dois milhões de pessoas e cem mil atletas por ano. O CODESP – RN, atende a cinqüenta e cinco mil pessoas se considerarmos todos os projetos. O público alvo consiste em crianças, adolescentes, adultos, idosos e deficientes físicos em ambas as secretarias.

Uma questão importantíssima suscitada pela entrevista diz respeito ao entendimento do que seria o esporte e o lazer na visão desses dois gestores. Nesse ponto entramos numa questão delicada pois desse entendimento, nascem as prioridades em termos de ações esportivas, público atendido e, o valor designado ao esporte e ao lazer em cada política. Podemos citar a visão do gestor do Rio Grande do Norte, quando se refere ao esporte como “... o rendimento, a técnica... é você fazer um trabalho com objetivo numa competição. O lazer é o jogo, a brincadeira, o esporte informal... é a falta de regra com disciplina. Sem disciplina não se faz nada... não gosto muito de lazer não...”. Percebemos nessa fala, o entendimento de que o esporte se resumiria minimamente a competições, ou da importância suscitada à técnica. Essa visão acaba em concordância com as políticas de esporte desse estado, nas quais observamos uma concentração elevada de eventos competitivos, com fins exclusivos para a busca de talentos esportivos. A visão do gestor da SEESP, corrobora com a do CODESP, quando afirma que “... esporte é o que diz a própria definição da lei... é o rendimento, é qualquer atividade visando resultado, rendimento. O lazer é o esporte sem objetivo, sem obrigação de competir. É uma forma de ocupar o tempo ocioso através do esporte”.

Interessante seria visualizar os entendimentos a respeito do lazer, como se fosse um sub-produto do esporte-espetáculo, ou do esporte de rendimento. Às propostas de lazer caberia desenvolver atividades esportivas que não visassem o rendimento. Além disso, essas propostas se resumem exclusivamente a Ruas de Lazer, sem que faça uma apropriação adequada desse direito para o cidadão. São muito mais atividades tarefeiras, que se propõem apenas a entreter o indivíduo. É quase que a identificação de um desinteresse na fala do dois gestores a respeito do lazer, justamente por ele vir descaracterizado desse aspecto competitivo e disciplinador.

O que significava o esporte para a gestão desses dois secretários acaba por complementar o entendimento do que seja o esporte. Ambos tiveram uma vida esportiva, em que dão sentido ao esporte como se fosse algo que lhes propiciaram ser o que são hoje. Denotam ao esporte a qualidade de lhes transformarem em cidadãos, em pessoas respeitadas. E, em sua gestão procuram propiciar isso às pessoas, querem que o esporte seja um instrumento transformador na vida das pessoas atendidas pelas políticas de esporte.

Finalizando, o que pareceu evidente nas entrevistas foi o discurso salvacionista dedicado ao esporte. A visão acerca que ambos tem a respeito de esporte mostra que pessoas ligadas à vida esportiva tem pretensões de pensar no esporte somente como um local propício às competições, ao desenvolvimento da técnica perfeita. Isso gera políticas excludentes que são seletivas a grupos específicos, ou que imbuem nas pessoas envolvidas o entendimento do esporte nessa concepção.

Outro discurso presente é que o “povão” interessa-se somente pelo esporte espetáculo. A pergunta que fica é por que não são feitas ações que busquem ensinar o esporte, possibilitar a vivência em vários conteúdos do lazer e convencer as pessoas sobre a importância do lazer, ou seja, ensinar valores não ligados ao modo de produção capitalista. O que percebemos é o reforçamento de valores como a competição, o esporte e o lazer como fatores de compensação dos desgastes do trabalho, o esporte como a panacéia do mundo, podendo livrar jovens das drogas e de outros males, enfim, retira-se do Estado a condição de propiciador dessas coisas e joga-se no esporte, nas atividades de lazer e nas pessoas o dever de fazerem isso por elas mesmas. Como nos reporta LINHALES (1996), a nova legislação nacional para o esporte, exalta o princípio da cidadania e a necessidade de ampliação do acesso, mas os caminhos e estratégias baseiam-se na idéia de que a autonomia e a liberdade dos agentes por si só, garantirão a democratização pretendida. Fica evidente na perspectiva de trabalho da SEESP por exemplo, quando coloca “... Existe uma lei que permite doar as praças esportivas às prefeituras e clubes privados para que os mesmos pudessem gerenciá-las. Dessa forma, estamos buscando sua utilização efetiva via prefeituras e clubes e estimulando a população a buscar essas praças.” Existe então, uma intenção de liberar responsabilidades, desobrigando as secretarias e, conseqüentemente o MET, de serem os órgãos mediadores, regulatórios e redistributivos das possibilidades igualitárias de acesso (LNHALES, 1996).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na prática, as ações do Estado continuaram a privilegiar interesses particulares. A nova legislação incorporou o discurso da cidadania e democratização do esporte e do lazer. No entanto, como o Estado, na perspectiva liberal, não assume suas funções de mediação de interesses, regulação e garantia de igualdade de acesso, na prática, a existência de autonomia e liberdade dos agentes, por si só, não garantem a democratização, mas sim o fortalecimento de grupos que se fazem representar politicamente, com isso excluindo parte considerável da população brasileira, principalmente as camadas mais empobrecidas (MALHEIROS, 2001).

Um agravante à possibilidade do esporte e do lazer como política social é a transformação do esporte em um produto de consumo e, do lazer em atividades tarefistas e compensatórias, o que enfraqueceria a idéia desses elementos como direitos sociais, ao mesmo tempo em que legitima a exclusão, já que consumir é um privilégio de quem tem poder aquisitivo, não sendo esta a realidade de grande parte do povo brasileiro (MALHEIROS, 2001).

Porém, nessas entrevistas e na observância dos materiais é alusiva a menção que a maioria dos gestores tem em relação ao esporte, enquanto um fenômeno competitivo. A maioria das políticas observadas desembocava em competições esportivas que buscavam detectar talentos, ou simplesmente poderíamos justificar os projetos como meras competições esportivas, um movimento de saudação ao olimpismo.

Essa característica, salvo as exceções que já se apresentam no contexto das políticas sociais no setor esportivo, possibilita mostrar que o que tem marcado a sua história são os projetos de esporte que ora incorporam características assistencialistas, existindo com variadas precariedades, ora voltam-se para a preparação de "mão-de-obra" que o esporte de alto rendimento necessita (LINHALES, 1996). Já as políticas de lazer incorporam características compensatórias, alienadoras e assitencialistas. As famosas ruas de lazer,enquadram-se muitas vezes nessa perspectiva, por simplesmente oferecerem um serviço à comunidade sem implicarem em qualquer tipo de reflexão ou de possibilidade de formulação conjunta com a comunidade.

A constante utilização do esporte e das atividades de lazer como estratégias de propaganda do governo explica a freqüência com que atletas e ex-atletas bem sucedidos desenvolvem carreiras políticas e porque os cargos de assessorias geralmente não são ocupados por técnicos (ZINGONI, 1999). Os gestores da SEESP/MG, um economista e, do CODESP/RN, um professor de Educação Física, comprovam o que Zingoni, retrata acima.

Fatores culturais, formacionais dos próprios gestores nos fazem refletir que as políticas são formuladas para atender interesses particulares e muitas vezes são parte de uma política maior de barganha. Podemos citar que a maioria dos governos estaduais não possui uma política estadual de esportes e lazer definida, ficando a cargo de um órgão formulá-las e executá-las naquele Estado, que muitas vezes sequer tem ligação com o projeto político do partido eleito. O vinculo entre gestor e partido político vigente é inexistente, acabando por gerar políticas ou ações que nada têm a ver com a realidade e necessidades locais.

São várias as possibilidades e interesses envolvidos nessa intervenção estatal, originando o que chamamos de políticas públicas, porém, faz-se necessário que maiores estudos abordem essas relações. Não existe apenas uma forma de resolver os problemas, como nos relata ABRANCHES (1987), porém, as demandas sociais acabam ficando em segundo plano para que não se produza um colapso econômico. Entretanto, em nome de áreas ditas mais importantes, a política de esportes e de lazer fica relegada a receber migalhas. Se perguntarmos qual área é mais delicada, possivelmente as pessoas prefeririam uma política de emprego e saúde a uma política de esportes e lazer. Observa-se que a opção política, ou os interesses é que ditarão as ações e direções do Estado dentro da política. Se existe um jogo de interesses, possivelmente a política se concretizará, o que mostra que sozinho o esporte ou o lazer não têm condições de se efetivarem.

           

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

MALHEIROS, Maria Cristina de Meneses. Investigando uma Proposta Municipal do Setor Esportivo de atendimento às Crianças e aos Adolescentes da camada social empobrecida. In: Anais do XII Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, Caxambú, MG, 2001.

ZINGONI, Patrícia. Considerações acerca de uma Política de Esporte Municipal no contexto de orçamento participativo. In: Anais do XI Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, Florianópolis, SC, 1999, p. 290-297, Caderno 2.

LINHALES, Meily Assbú. A Trajetória Política do Esporte no Brasil:interesses envolvidos, setores excluídos. 1996. 217f. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

ABRANCHES, Sérgio Henrique. Política social, pobreza e desigualdade: a prática da teoria. In: ABRANCHES, Sérgio Henrique; SANTOS, Wanderley Guilherme e COIMBRA, Marcos Antônio. Política Social e Combate a Pobreza. Rio de Janeiro; Jorge Zahar, 1987.

SANTOS, Wanderley Guilherme. A Trágica Condição da Política Social. In: ABRANCHES, Sérgio Henrique; SANTOS, Wanderley Guilherme e COIMBRA, Marcos Antônio. Política Social e Combate a Pobreza. Rio de Janeiro; Jorge Zahar, 1987.

 

 

 

Red Latinoamericana de Recreación y Tiempo Libre  |  Red Nacional de Recreación

Fundación Colombiana de Tiempo Libre y Recreación / FUNLIBRE

 



[1] Professora de Educação Física. Integrante do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade da UFViçosa.

[2] Professor Adjunto da UFViçosa. Integrante do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade da UFViçosa.

[3] ABRANCHES (1987:17-18), define a cesta social básica não apenas como as necessidades ditas “básicas”, ligadas à pura sobrevivência física, mas às necessidades culturais ou socialmente determinadas, as quais definem um mínimo de bem-estar e a garantia de meios que permitam alterar as chances de vida futura. Como exemplo dessas outras necessidades colocamos a esfera esportiva e o lazer que são culturalmente e socialmente determinados em cada estado brasileiro.