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Ponencia |
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Inicialmente,
gostaria de agradecer à coordenação do evento pelo convite e pela oportunidade
de participar desse congresso, e ressaltar a importância e a necessidade de
organização de eventos desta natureza, que podem suscitar as discussões, as
reflexões e as trocas de experiências no campo do lazer. Além disso, é uma
honra e uma grande alegria poder estreitar os laços profissionais entre os nossos
países. Nos
dias atuais, vivemos em um contexto de desenvolvimento tecnológico que vêm
afetando diretamente a produção e a difusão do conhecimento, bem como a criação
e a exploração de novos espaços de conhecimento. Juntamente com essas
transformações observo uma sensibilização da sociedade para valores éticos,
políticos e sociais que obrigam todas as profissões a rever as competências
profissionais requeridas e conseqüentemente a formação de seus profissionais. É
nesse contexto que esse texto se propõe a refletir sobre a formação de
profissionais para atuar no âmbito do lazer, apresentando um breve panorama
sobre as possibilidades identificadas na realidade brasileira. Ao
refletir sobre a formação de profissionais para atuar no âmbito do lazer,
inicialmente é necessário reforçar que o lazer se configura como um campo
multidisciplinar que possibilita a concretização de propostas
interdisciplinares, por meio da participação de profissionais com diferentes
formações (Arte-Educação, Educação Física, Pedagogia, Psicologia, Sociologia,
Terapia Ocupacional, Turismo e Hotelaria, dentre outros). Lamentavelmente,
ainda se pensa que, para atuar na área, não é necessário ter formação
específica e aprofundada sobre o tema. Por isso, é preciso (re)pensar os
pressupostos que encaminham a formação de profissionais e como ela está sendo
processada na realidade brasileira. No
Brasil, é cada vez mais crescente o interesse de alunos e professores pela
discussão da temática do lazer, tendo em vista as diferentes opções de estudo e
de intervenção profissional que o campo de trabalho vem abrindo nesse âmbito,
para os profissionais formados. Especialmente nos últimos anos, vem aumentando
a preocupação com o lazer, enquanto um dos fatores fundamentais para a promoção
da qualidade de vida. Além disso, o lazer vem sendo amplamente destacado pelos
meios de comunicação de massa como uma das áreas mais promissoras do século
XXI. Em virtude disso, ampliam-se as possibilidades de formação profissional
nesse campo, mas estas devem ser analisadas com cuidados por aqueles que
desejam participar dessas ações. Segundo
WERNECK (2000) formar significa fecundar um conjunto de idéias e reflexões,
criar possibilidades que nos retirem de posições acomodadas, mobilizando e
transformando o outro de alguma maneira. É uma maneira de nos colocarmos
avessos às incertezas cristalizadas, com curiosidade e desejo de saber para
construirmos juntos o conhecimento. Nesse sentido, o desafio é agregar esforços
para formar profissionais capazes de construir coletivamente ações
teórico-práticas sobre o lazer significativas, afim de não mascarar ou atenuar
os problemas sociais dos sujeitos envolvidos. No
Brasil, a formação profissional no âmbito do lazer vem se concretizando,
principalmente, a partir de duas perspectivas: a primeira que se preocupa em
formar um profissional mais técnico, que tem como orientação primordial o
domínio de conteúdos específicos e metodologias. Nesse caso a formação
privilegia a familiarização com as práticas e atividades que se apresentam no dia-a-dia
do animador cultural. A preocupação central é com a instrumentalização técnica
e com o domínio de procedimentos e metodologias. Como
resultado surge o tecnicismo que restringe o profissional a um “simples”
técnico e a mediação técnica se torna substantiva norteando os fins e valores
do processo de formação e não ao contrário. A prática torna-se o eixo da
formação e sua realização tende a minimizar o papel da teoria na ação
profissional. Dessa forma, reafirma-se a dicotomia entre teoria e prática, enfatizando-se
a segunda e atribuindo menor importância às reflexões de cunho filosófico,
político, cultural e sociológico, fundamentais no processo de atuação
profissional nesse âmbito. Muitas vezes, os sujeitos de diferentes cursos de
formação na área do lazer anseiam por “receitas prontas de atividades” e
reforçam o interesse por um número bastante variado de modelos e alternativas. É
importante frisar que um sólido referencial teórico possibilita a compreensão
da prática a partir de novos olhares, permitindo a consolidação da práxis. Um
animador cultural que atua em clubes, por exemplo, e conhece questões sobre as
diferentes faixas etárias (criança, adolescente, adulto e idosos) e grupos
sociais (portadores de necessidades especiais, negros, índios, homossexuais,
etc) terá a sua prática a partir de outra perspectiva. Dessa forma, a relação
teoria-prática adquire função muito diferente de um simples fazer mecânico e
técnico. A segunda
perspectiva propõe uma formação centrada no conhecimento, na cultura e na
crítica, que se dá por meio da construção de saberes e competências que devem
estar alicerçadas no comprometimento com os valores disseminados numa sociedade
democrática, bem como na compreensão do papel social do profissional na
educação para e pelo lazer. A formação deve possibilitar o domínio de conteúdos
que devem ser socializados, a partir do entendimento de seus significados em
diferentes contextos e articulações interdisciplinares. Deve, ainda, promover o
conhecimento de processos de investigação, que auxilie no aperfeiçoamento da
ação do animador cultural e no gerenciamento do próprio desenvolvimento de
ações educativas lúdicas, críticas e criativas. A formação de
profissionais no campo do lazer deve, portanto, ser pautada na competência
técnica, científica, política, filosófica e pedagógica e no conhecimento
crítico da realidade. É preciso romper com a visão essencialmente tecnicista,
comum em nosso meio, tendo em vista uma práxis consciente. A ação deve ser
comprometida com mudanças que considerem as lutas contra as injustiças sociais,
na intenção de concretizar uma sociedade mais igualitária, que respeite as
diferenças culturais e que crie possibilidades de participação e de
democratização social (MARCELLINO, 1995). Por isso, é
necessário pensar a construção de saberes e competências que devem estar
relacionados ao comprometimento com os valores alicerçados numa sociedade
democrática, à compreensão do papel social do profissional na educação para e
pelo lazer. Além disso, a formação deve proporcionar o domínio de conteúdos a
serem socializados, a partir do entendimento de seus significados em diferentes
contextos e articulações interdisciplinares, e, por fim, ao conhecimento de
processos de investigação, que auxiliem no aperfeiçoamento da ação profissional
no campo do lazer e no gerenciamento do próprio desenvolvimento de ações
educativas lúdicas. Com isso, uma
sólida formação profissional voltada para o lazer não pode visar o simples
processo de transmissão de saberes, mas de constituição e posicionamento de
nossa própria inserção enquanto sujeitos, e de nosso lugar nas várias divisões
socioculturais apresentadas em nossa realidade (WERNECK, 2000). O documento
final aprovado no X Encontro Nacional da Anfope (2000) apresenta contribuições
para pensar princípios orientadores para a formação de profissionais do campo
do lazer, tendo em vista o entendimento do animador cultural como educador.
Portanto, a formação deve perspectivar a unidade entre teoria e prática; a
gestão democrática das possibilidades de lazer; o compromisso social do
profissional; o trabalho coletivo e interdisciplinar; uma sólida formação
teórica e cultural e a integração da concepção de educação continuada. Caldeira (2001)
nos chama a atenção para a valorização da subjetividade do profissional no seu
processo de formação. Sobre esse aspecto reforço a necessidade de levar em
conta a subjetividade dos sujeitos que estão intervindo, sem deixar de
considerar que ela é socialmente condicionada e isso implica em considerá-la
como resultado de diferentes aspectos culturais, econômicos, sociais e
políticos. A autora afirma ainda que considerar a subjetividade significa
reconhecer que os próprios indivíduos contribuem para a formação e a
transformação dos contextos. Na atualidade, existe uma tendência à
comercialização das propostas de formação profissional na área, que de maneira
geral, restringem a compreensão sobre o lazer. Este é focalizado como um filão
no mercado que abre amplas possibilidades de ganhos, e é associado ao consumo exacerbado
e alienado de bens materiais e de serviços “recreativos”, que pode auxiliar a
fuga e a distração dos problemas apresentados em nosso cotidiano. Nesse caso, a
expansão desenfreada de cursos que apresentam essa tendência é preocupante e
deve ser analisada cuidadosamente pelos interessados em ampliar seus
conhecimentos sobre o lazer. Analisando as propostas de alguns cursos de
reciclagem, aperfeiçoamento, atualização, bem como de disciplinas ministradas
em diferentes cursos de graduação pode se observar uma ênfase na reprodução de
atividades diversas, mediante o ensino de uma variedade de jogos e
brincadeiras. Essas propostas disponibilizam “receitas” de atividades, não
superando a tradição prática e com dificuldades de fomentar a sistematização de
conhecimentos efetivamente teórico-práticos. No entanto, já existem iniciativas
de algumas universidades, grupos de pesquisa e órgãos públicos que procuram
enfocar o lazer de maneira abrangente e contextualizada. Apesar do crescimento na discussão sobre o lazer nos
cursos de Administração, Artes, Educação Física, Fisioterapia, Hotelaria,
Pedagogia, Terapia Ocupacional e Turismo a análise de muitos desses currículos
demonstra que a discussão dos conhecimentos sobre o lazer tem pequeno espaço no
interior das propostas. Isso caracteriza uma incompatibilidade entre a forma
como esses temas são tratados nos currículos e as diferentes oportunidades de
estudo e atuação que o campo vem abrindo para profissionais formados (ISAYAMA,
2003). Um aspecto importante a ser ressaltado é que no
Brasil, desde 1998, já vêm sendo ofertados cursos de graduação específicos
sobre o lazer demonstrando uma nova tendência que se abre no mercado. Alguns
desafios permeiam a implantação e o desenvolvimento desses cursos, tais como: a
necessidade de buscar referências locais que norteiem a construção curricular;
a falta de recursos humanos especializados e qualificados e, ainda, a
inadequação das estratégias de implantação e difusão geralmente adotadas pelas
instituições. Na atualidade a pós-graduação lato e stricto
sensu vem se apresentando com uma interessante possibilidade de formação de
profissionais para atuar no âmbito do lazer, tendo em vistas a formação docente
para atuar em diferentes níveis e de pesquisadores interessados em aprofundar
conhecimentos sobre a temática. No entanto, ainda é pequeno o número de cursos
ofertados, se comparado ao número de profissionais interessados em aprofundar
conhecimentos nesse campo. Além disso, outra possibilidade de formação é
vislumbrada em um número expressivo de grupos de estudo/pesquisa que estão
sendo criados em diferentes faculdades, escolas, departamentos e cursos
conforme pode ser visualizado no trabalho de MELO; DRUMMOND (2003). Esses
autores apresentam outras possibilidades, tais como: a realização de eventos
técnico-científicos específicos; a criação de listas de discussão na internet;
a publicação de artigos científicos em revistas das mais diferentes áreas, com
destaque para a Revista Licere (atualmente único periódico específico sobre o lazer
no País). Há muito que fazer no âmbito da formação para atuar no
campo do lazer, no entanto é preciso fornecer elementos para a consolidação de
um profissional crítico, criativo, questionador, reflexivo, articulador,
pesquisador, interdisciplinar, que saiba praticar efetivamente as “teorias” que
propõe a grupos com os quais vai atuar. Por isso, a formação não deve ser
pensada de modo fragmentado, e sim como um processo que não se inicia e nem se
esgota na formação inicial. É necessário, portanto, incentivar a formação em
uma perspectiva continuada, sendo constantemente alimentada pela participação
em cursos de diferentes naturezas (técnicos, de atualização, de
aperfeiçoamento, de especialização, de mestrado, de doutorado), em eventos
técnicos-científicos, em listas de discussões, dentre outras ações de devem
fazer parte do cotidiano dos profissionais que desejam atuar com o lazer. Saliento ainda que é necessário um esforço sistemático
para responsabilizar as instituições pela formação continuada de seus
profissionais, investindo na produção de conhecimento sobre essa formação e nas
mudanças que isso pode gerar nos processos de atuação profissional, objetivando
a efetiva participação cultural. Por isso, é preciso garantir que a formação em
serviço se constitua em espaço para o animador cultural aprender, tendo como
porto de partida a reflexão sobre sua intervenção cotidiana. Concordo com Caldeira (2001) quando afirma que a
formação é um processo inacabado, em constante movimento de reconversão, sendo
a formação inicial apenas parte do processo que prossegue com a formação
continuada, entendida de forma ampla. Longe de querer esgotar as
questões que permeiam a formação profissional no âmbito do lazer, apresento
estas reflexões na tentativa de contribuir com a ampliação do debate sobre esse
tema, já que são escassos os trabalhos que analisam esse tema. Assim, é
necessário lembrar que, apesar de um aumento nas iniciativas na área do lazer
virem contribuindo para o avançar dessas propostas, necessitamos de mais
estudos teórico-práticos preocupados com a qualidade das ações desenvolvidas no
âmbito da formação profissional nesse campo. REFERÊNCIAS CALDEIRA, Anna Maria S. A formação
de professores de Educação Física: quais saberes e quais habilidades? Revista do Colégio Brasileiro de Ciências do
Esporte. Campinas: Autores Associados. V. 22, n. 3, p. 87-104. mai, 2001. ISAYAMA, Hélder F. Recreação e lazer como integrantes dos
currículos dos cursos de graduação MARCELLINO, Nelson C. O lazer na
atualidade brasileira: perspectivas na formação/atuação profissional. Licere, Belo Horizonte, v.3. n.1,
p.125-133, set. 2000. MELO, Victor Andrade; DRUMMOND,
Edmundo. Introdução ao lazer. São Paulo: Manole, 2003. WERNECK, Christianne L. G. Lazer, trabalho e educação: relações
históricas e questões contemporâneas. Belo Horizonte: Editora da UFMG/CELAR,
2000. |
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[1] Esse texto é uma versão ampliada do verbete Formação Profissional publicado no Dicionário Critico do Lazer, organizado pela Prof. Christianne Luce Gomes e publicado em 2004 em parceria pelo CELAR/UFMG e pela Editora Autentica.
[2] Professor da Escola de Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte/Brasil); Líder do grupo de pesquisa Lazer e Sociedade (CELAR/UFMG) e do grupo de pesquisa em Lazer (GPL/Facis/Unimep).