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Documento:

FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM LAZER:
UM PANORAMA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA [1]

Autor:

HELDER FERREIRA ISAYAMA [2]

Universidade Federal de Minas Gerais. Brasíl.

Origen:

IV Simposio Nacional de Investigación y Formación en Recreación.
Vicepresidencia de la República / Coldeportes / FUNLIBRE
Mayo 19 al 21 de 2005. Cali, Colombia.

 

 

 

 

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Ø Ponencias del Simposio

 


Ponencia

 

 

Inicialmente, gostaria de agradecer à coordenação do evento pelo convite e pela oportunidade de participar desse congresso, e ressaltar a importância e a necessidade de organização de eventos desta natureza, que podem suscitar as discussões, as reflexões e as trocas de experiências no campo do lazer. Além disso, é uma honra e uma grande alegria poder estreitar os laços profissionais entre os nossos países.

Nos dias atuais, vivemos em um contexto de desenvolvimento tecnológico que vêm afetando diretamente a produção e a difusão do conhecimento, bem como a criação e a exploração de novos espaços de conhecimento. Juntamente com essas transformações observo uma sensibilização da sociedade para valores éticos, políticos e sociais que obrigam todas as profissões a rever as competências profissionais requeridas e conseqüentemente a formação de seus profissionais. É nesse contexto que esse texto se propõe a refletir sobre a formação de profissionais para atuar no âmbito do lazer, apresentando um breve panorama sobre as possibilidades identificadas na realidade brasileira.

Ao refletir sobre a formação de profissionais para atuar no âmbito do lazer, inicialmente é necessário reforçar que o lazer se configura como um campo multidisciplinar que possibilita a concretização de propostas interdisciplinares, por meio da participação de profissionais com diferentes formações (Arte-Educação, Educação Física, Pedagogia, Psicologia, Sociologia, Terapia Ocupacional, Turismo e Hotelaria, dentre outros). Lamentavelmente, ainda se pensa que, para atuar na área, não é necessário ter formação específica e aprofundada sobre o tema. Por isso, é preciso (re)pensar os pressupostos que encaminham a formação de profissionais e como ela está sendo processada na realidade brasileira.

No Brasil, é cada vez mais crescente o interesse de alunos e professores pela discussão da temática do lazer, tendo em vista as diferentes opções de estudo e de intervenção profissional que o campo de trabalho vem abrindo nesse âmbito, para os profissionais formados. Especialmente nos últimos anos, vem aumentando a preocupação com o lazer, enquanto um dos fatores fundamentais para a promoção da qualidade de vida. Além disso, o lazer vem sendo amplamente destacado pelos meios de comunicação de massa como uma das áreas mais promissoras do século XXI. Em virtude disso, ampliam-se as possibilidades de formação profissional nesse campo, mas estas devem ser analisadas com cuidados por aqueles que desejam participar dessas ações.

Segundo WERNECK (2000) formar significa fecundar um conjunto de idéias e reflexões, criar possibilidades que nos retirem de posições acomodadas, mobilizando e transformando o outro de alguma maneira. É uma maneira de nos colocarmos avessos às incertezas cristalizadas, com curiosidade e desejo de saber para construirmos juntos o conhecimento. Nesse sentido, o desafio é agregar esforços para formar profissionais capazes de construir coletivamente ações teórico-práticas sobre o lazer significativas, afim de não mascarar ou atenuar os problemas sociais dos sujeitos envolvidos.

No Brasil, a formação profissional no âmbito do lazer vem se concretizando, principalmente, a partir de duas perspectivas: a primeira que se preocupa em formar um profissional mais técnico, que tem como orientação primordial o domínio de conteúdos específicos e metodologias. Nesse caso a formação privilegia a familiarização com as práticas e atividades que se apresentam no dia-a-dia do animador cultural. A preocupação central é com a instrumentalização técnica e com o domínio de procedimentos e metodologias.

Como resultado surge o tecnicismo que restringe o profissional a um “simples” técnico e a mediação técnica se torna substantiva norteando os fins e valores do processo de formação e não ao contrário. A prática torna-se o eixo da formação e sua realização tende a minimizar o papel da teoria na ação profissional. Dessa forma, reafirma-se a dicotomia entre teoria e prática, enfatizando-se a segunda e atribuindo menor importância às reflexões de cunho filosófico, político, cultural e sociológico, fundamentais no processo de atuação profissional nesse âmbito. Muitas vezes, os sujeitos de diferentes cursos de formação na área do lazer anseiam por “receitas prontas de atividades” e reforçam o interesse por um número bastante variado de modelos e alternativas.

É importante frisar que um sólido referencial teórico possibilita a compreensão da prática a partir de novos olhares, permitindo a consolidação da práxis. Um animador cultural que atua em clubes, por exemplo, e conhece questões sobre as diferentes faixas etárias (criança, adolescente, adulto e idosos) e grupos sociais (portadores de necessidades especiais, negros, índios, homossexuais, etc) terá a sua prática a partir de outra perspectiva. Dessa forma, a relação teoria-prática adquire função muito diferente de um simples fazer mecânico e técnico.

A segunda perspectiva propõe uma formação centrada no conhecimento, na cultura e na crítica, que se dá por meio da construção de saberes e competências que devem estar alicerçadas no comprometimento com os valores disseminados numa sociedade democrática, bem como na compreensão do papel social do profissional na educação para e pelo lazer. A formação deve possibilitar o domínio de conteúdos que devem ser socializados, a partir do entendimento de seus significados em diferentes contextos e articulações interdisciplinares. Deve, ainda, promover o conhecimento de processos de investigação, que auxilie no aperfeiçoamento da ação do animador cultural e no gerenciamento do próprio desenvolvimento de ações educativas lúdicas, críticas e criativas.

A formação de profissionais no campo do lazer deve, portanto, ser pautada na competência técnica, científica, política, filosófica e pedagógica e no conhecimento crítico da realidade. É preciso romper com a visão essencialmente tecnicista, comum em nosso meio, tendo em vista uma práxis consciente. A ação deve ser comprometida com mudanças que considerem as lutas contra as injustiças sociais, na intenção de concretizar uma sociedade mais igualitária, que respeite as diferenças culturais e que crie possibilidades de participação e de democratização social (MARCELLINO, 1995).

Por isso, é necessário pensar a construção de saberes e competências que devem estar relacionados ao comprometimento com os valores alicerçados numa sociedade democrática, à compreensão do papel social do profissional na educação para e pelo lazer. Além disso, a formação deve proporcionar o domínio de conteúdos a serem socializados, a partir do entendimento de seus significados em diferentes contextos e articulações interdisciplinares, e, por fim, ao conhecimento de processos de investigação, que auxiliem no aperfeiçoamento da ação profissional no campo do lazer e no gerenciamento do próprio desenvolvimento de ações educativas lúdicas.

Com isso, uma sólida formação profissional voltada para o lazer não pode visar o simples processo de transmissão de saberes, mas de constituição e posicionamento de nossa própria inserção enquanto sujeitos, e de nosso lugar nas várias divisões socioculturais apresentadas em nossa realidade (WERNECK, 2000).

O documento final aprovado no X Encontro Nacional da Anfope (2000) apresenta contribuições para pensar princípios orientadores para a formação de profissionais do campo do lazer, tendo em vista o entendimento do animador cultural como educador. Portanto, a formação deve perspectivar a unidade entre teoria e prática; a gestão democrática das possibilidades de lazer; o compromisso social do profissional; o trabalho coletivo e interdisciplinar; uma sólida formação teórica e cultural e a integração da concepção de educação continuada.

Caldeira (2001) nos chama a atenção para a valorização da subjetividade do profissional no seu processo de formação. Sobre esse aspecto reforço a necessidade de levar em conta a subjetividade dos sujeitos que estão intervindo, sem deixar de considerar que ela é socialmente condicionada e isso implica em considerá-la como resultado de diferentes aspectos culturais, econômicos, sociais e políticos. A autora afirma ainda que considerar a subjetividade significa reconhecer que os próprios indivíduos contribuem para a formação e a transformação dos contextos.

   Na atualidade, existe uma tendência à comercialização das propostas de formação profissional na área, que de maneira geral, restringem a compreensão sobre o lazer. Este é focalizado como um filão no mercado que abre amplas possibilidades de ganhos, e é associado ao consumo exacerbado e alienado de bens materiais e de serviços “recreativos”, que pode auxiliar a fuga e a distração dos problemas apresentados em nosso cotidiano. Nesse caso, a expansão desenfreada de cursos que apresentam essa tendência é preocupante e deve ser analisada cuidadosamente pelos interessados em ampliar seus conhecimentos sobre o lazer.

Analisando as propostas de alguns cursos de reciclagem, aperfeiçoamento, atualização, bem como de disciplinas ministradas em diferentes cursos de graduação pode se observar uma ênfase na reprodução de atividades diversas, mediante o ensino de uma variedade de jogos e brincadeiras. Essas propostas disponibilizam “receitas” de atividades, não superando a tradição prática e com dificuldades de fomentar a sistematização de conhecimentos efetivamente teórico-práticos. No entanto, já existem iniciativas de algumas universidades, grupos de pesquisa e órgãos públicos que procuram enfocar o lazer de maneira abrangente e contextualizada.

Apesar do crescimento na discussão sobre o lazer nos cursos de Administração, Artes, Educação Física, Fisioterapia, Hotelaria, Pedagogia, Terapia Ocupacional e Turismo a análise de muitos desses currículos demonstra que a discussão dos conhecimentos sobre o lazer tem pequeno espaço no interior das propostas. Isso caracteriza uma incompatibilidade entre a forma como esses temas são tratados nos currículos e as diferentes oportunidades de estudo e atuação que o campo vem abrindo para profissionais formados (ISAYAMA, 2003).

Um aspecto importante a ser ressaltado é que no Brasil, desde 1998, já vêm sendo ofertados cursos de graduação específicos sobre o lazer demonstrando uma nova tendência que se abre no mercado. Alguns desafios permeiam a implantação e o desenvolvimento desses cursos, tais como: a necessidade de buscar referências locais que norteiem a construção curricular; a falta de recursos humanos especializados e qualificados e, ainda, a inadequação das estratégias de implantação e difusão geralmente adotadas pelas instituições.

Na atualidade a pós-graduação lato e stricto sensu vem se apresentando com uma interessante possibilidade de formação de profissionais para atuar no âmbito do lazer, tendo em vistas a formação docente para atuar em diferentes níveis e de pesquisadores interessados em aprofundar conhecimentos sobre a temática. No entanto, ainda é pequeno o número de cursos ofertados, se comparado ao número de profissionais interessados em aprofundar conhecimentos nesse campo.

Além disso, outra possibilidade de formação é vislumbrada em um número expressivo de grupos de estudo/pesquisa que estão sendo criados em diferentes faculdades, escolas, departamentos e cursos conforme pode ser visualizado no trabalho de MELO; DRUMMOND (2003). Esses autores apresentam outras possibilidades, tais como: a realização de eventos técnico-científicos específicos; a criação de listas de discussão na internet; a publicação de artigos científicos em revistas das mais diferentes áreas, com destaque para a Revista Licere (atualmente único periódico específico sobre o lazer no País).

Há muito que fazer no âmbito da formação para atuar no campo do lazer, no entanto é preciso fornecer elementos para a consolidação de um profissional crítico, criativo, questionador, reflexivo, articulador, pesquisador, interdisciplinar, que saiba praticar efetivamente as “teorias” que propõe a grupos com os quais vai atuar. Por isso, a formação não deve ser pensada de modo fragmentado, e sim como um processo que não se inicia e nem se esgota na formação inicial. É necessário, portanto, incentivar a formação em uma perspectiva continuada, sendo constantemente alimentada pela participação em cursos de diferentes naturezas (técnicos, de atualização, de aperfeiçoamento, de especialização, de mestrado, de doutorado), em eventos técnicos-científicos, em listas de discussões, dentre outras ações de devem fazer parte do cotidiano dos profissionais que desejam atuar com o lazer.

Saliento ainda que é necessário um esforço sistemático para responsabilizar as instituições pela formação continuada de seus profissionais, investindo na produção de conhecimento sobre essa formação e nas mudanças que isso pode gerar nos processos de atuação profissional, objetivando a efetiva participação cultural. Por isso, é preciso garantir que a formação em serviço se constitua em espaço para o animador cultural aprender, tendo como porto de partida a reflexão sobre sua intervenção cotidiana.

Concordo com Caldeira (2001) quando afirma que a formação é um processo inacabado, em constante movimento de reconversão, sendo a formação inicial apenas parte do processo que prossegue com a formação continuada, entendida de forma ampla.

Longe de querer esgotar as questões que permeiam a formação profissional no âmbito do lazer, apresento estas reflexões na tentativa de contribuir com a ampliação do debate sobre esse tema, já que são escassos os trabalhos que analisam esse tema. Assim, é necessário lembrar que, apesar de um aumento nas iniciativas na área do lazer virem contribuindo para o avançar dessas propostas, necessitamos de mais estudos teórico-práticos preocupados com a qualidade das ações desenvolvidas no âmbito da formação profissional nesse campo.

 

REFERÊNCIAS

CALDEIRA, Anna Maria S. A formação de professores de Educação Física: quais saberes e quais habilidades? Revista do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte. Campinas: Autores Associados. V. 22, n. 3, p. 87-104. mai, 2001.

ISAYAMA, Hélder F. Recreação e lazer como integrantes dos currículos dos cursos de graduação em Educação Física. Campinas: Faculdade de Educação Física da Unicamp, 2002. (Tese, Doutorado em Educação Física).

MARCELLINO, Nelson C. O lazer na atualidade brasileira: perspectivas na formação/atuação profissional. Licere, Belo Horizonte, v.3. n.1, p.125-133, set. 2000.

MELO, Victor Andrade; DRUMMOND, Edmundo. Introdução ao lazer. São Paulo: Manole, 2003.

WERNECK, Christianne L. G. Lazer, trabalho e educação: relações históricas e questões contemporâneas. Belo Horizonte: Editora da UFMG/CELAR, 2000.

 

 

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[1] Esse texto é uma versão ampliada do verbete Formação Profissional publicado no Dicionário Critico do Lazer, organizado pela Prof. Christianne Luce Gomes e publicado em 2004 em parceria pelo CELAR/UFMG e pela Editora Autentica.

[2] Professor da Escola de Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte/Brasil); Líder do grupo de pesquisa Lazer e Sociedade (CELAR/UFMG) e do grupo de pesquisa em Lazer (GPL/Facis/Unimep).